segunda-feira, 7 de julho de 2008

Os desafios da relação família-escola.










RESUMO

O presente trabalho resulta de reflexões no ambiente de exercício da minha docência à luz de estudos sobre o papel social da escola e a participação dos integrantes da comunidade escolar numa perspectiva democrática como fator de efetivação da natureza social da escola, cujos fundamentos teóricos, entre outros, cito o exemplo da prática de Paulo Freire mencionada por Torres (1979); a crítica da pobreza política denunciada por Pedro Demo (1997), a prática educacional como meio para a promoção da liberdade de Freire (1981), Nérici (1972) com sua contribuição sobre a relação família e escola e a caracterização da escola cidadã apresentada por Moacir Gadotti (1999). Antes, porém, Cícero (1996), Ozanam (2006) e Rousseau (2004) contribuem para o entendimento do conceito de Estado e escola. O objetivo deste trabalho, portanto, é apresentar as implicações da relação família-escola no contexto da Escola Municipal Santa Rosa e as determinantes dessa relação para o bom andamento do processo ensino-aprendizagem. Para tanto, apresentarei fundamentos teóricos dessa relação em consonância com os teóricos mencionados . O estudo da organização institucional da escola e os mecanismos de promoção da gestão democrática, canal de efetiva participação da família na gestão e no processo de ensino e aprendizagem também será elemento norteador desta dissertação.

Palavras-chave: família, escola, democracia, autonomia, significação.



Introdução

A Escola Municipal Santa Rosa é uma escola rural localizada em um Assentamento distante 80 quilômetros da área urbana da cidade de Niquelândia. A escola possui 420 alunos e é no entrelaçamento das relações e da prática educacional que delinearei a reflexão sobre a relação família/escola e o problema da transferência de responsabilidades que tem ficado cada vez mais evidente em muitas escolas, de modo especial na nossa Escola Santa Rosa. O problema, ponto de partida, é a ausência da família e, conseqüência dessa ausência, a atribuição à escola de funções que eram e deviam ser de responsabilidade da família.
Sabe-se que a família é, salvo algumas exceções degenerativas, a primeira experiência humana de vida em sociedade e é nesse ambiente familiar que a pessoa experimenta as primeiras aprendizagens em nível social. Embora não possamos pretender institucionalizar o conhecimento que o indivíduo desenvolve na convivência familiar, como se este pudesse substituir o conhecimento escolar, não podemos, da mesma forma, prescindir da importância da complementariedade entre estes dois momentos de aprendizagem. Isso já bastaria para evidenciar o quão importante é o papel da família no processo de ensino e de aprendizagem. Mas é preciso considerar ainda que o papel da família, como unidade formadora, continua mesmo depois que a escola entra em cena; e do reconhecimento da necessidade de acompanhamento e colaboração no processo formativo dos alunos por seus pais, depende o futuro de muitas crianças, de modo especial aquelas das séries iniciais.
Não é, contudo, apenas no sentido afetivo que a parceria família escola colabora para a melhoria no processo educacional, mas, fundamentalmente, para que a escola possa, efetivamente, ser espaço de exercício de cidadania e, num sentido libertador, tal qual prenuncia FREIRE (1996), de conscientização e transformação da realidade. Nesse sentido, PARO nos alerta para a importância que a escola deve dar à existência da criança fora da escola, no propósito de conhecê-la integralmente, e ao mesmo tempo conclama a família para a incentivarem e influenciarem positivamente os filhos, o que requer destes, uma nova postura frente à escola. Fica, enfim, posto o desafio de que trata este artigo, o de educar numa perspectiva democrática partilhando responsabilidades entre família e escola de modo a estimular a formação de um cidadão que como MACEDO apresenta, tem qualidades intelectuais, mas também morais. A formação do indivíduo, não pode ser, porém, apenas de responsabilidade da escola. É preciso que a família reassuma o seu papel de célula formadora e, especialmente no caso da Escola Municipal Santa Rosa, se abra à parceria escola/família com vistas à promoção de uma educação significativa.

Desenvolvimento

Família e escola são instituições de difícil definição. Mas, para melhor compreensão do presente trabalho, faz-se necessário situar o leitor dentro de uma conceituação que possibilite identificar de que escola se fala. Nessa perspectiva, a escola apresenta-se definida pelo sentido da sua existência, ou seja, pela prática que se efetiva dentro da estrutura de um prédio dedicado a fins educacionais. A escola de que falamos é aquela que educa para a vida, tal qual anuncia Rousseau na obra Emílio, como prenúncio das funções sociais da escola, independente das pré-disposições que cada criança possa ter, a escola deverá vê-lo em sentido pleno e trabalhar na promoção da sua potencialidade enquanto ser. A família, por seu turno, é entendida dentro desse texto um sistema complexo de relações, onde seus membros compartilham um mesmo contexto social de pertencimento. Esse conceito não corresponde a uma visão estática, pelo contrário, a família é o lugar do reconhecimento das diferenças, do aprendizado, espaço das primeiras trocas afetivo-emocionais e da construção da identidade. É do abraço dessas duas instituições, com potencialidades e especificidades tão evidentes que a Escola Municipal Santa Rosa precisa porque como afirma Freire “a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda” numa evidência de que Escola e família; escola, família e sociedade devem estar juntas no processo formativo com vistas à construção de uma sociedade melhor.
A Escola Municipal Santa Rosa atua na educação básica oferecendo de 1º ao 9º ano do ensino fundamental. É a única escola que, efetivamente, se encontra em área de assentamento, muito embora o município tenha outras escolas que atendem alunos oriundos de famílias assentadas e em área de conflitos agrários. Atender um grupo específico é uma particularidade da Escola Santa Rosa que lhe é inerente desde o seu nascimento. Nossa escola nasceu para atender os funcionários e filhos de funcionários da multinacional Codemin S/A, hoje Anglo American Brasil e outras empresas como a Cocal, prestadoras de serviço à Codemin. Escola foi construída em uma vila conhecida como Horto Aranha e que foi cercada por plantações de eucaliptos em vistas à produção de carvão a ser utilizado nas operações de produção de níquel contido em ferroníquel.
Anos mais tarde com as mudanças operacionais empreendidas pela Codemin a Vila do Horto Aranha foi ficando deserta. Em 2003 já era apenas um conjunto de casas vazias e uma vila cujo silêncio só era rompido pela chegada dos alunos cujos, em sua maioria, vinham do assentamento que também ficou conhecido como Assentamento do Aranha. Finalmente, em 2006, um novo prédio foi construído no Assentamento.
Há mais de seis anos trabalho na Escola Santa Rosa e percebo pelas observações que faço, e pela fundamentação teórica que o curso de Pedagogia me permitiu, que, embora a Codemin tenha sido uma boa parceira, no sentido financeiro, o espírito comunitário, e até democrático, da escola sempre foi afetado pela omissão da grande maioria dos pais que vêem no ato da matrícula dos filhos um gesto de entrega destes à escola e, daí para frente, omitem-se ao seu papel de colaboradores no processo formativo dos filhos. Fator agravante desse fenômeno é a constatação de que muitas dessas crianças sofrem de um mal que até pouco tempo era tipicamente urbano, filhos de um relacionamento não estável, ou, dito de outra forma, filhos de mãe solteira. Como se não bastasse, muitas destas mães precisam procurar emprego na cidade e abandonam os filhos morando com os avós que, por seu turno, não têm preparação nem condições físicas e psicológicas para ajudarem os filhos-netos.
A escola não pode ser alheia a estas situações e suas implicações ao processo educacional. O que não se pode, todavia, é permitir que a escola procurando dar respostas a estes problemas ofereça, como hoje o faz, o psicólogo, o dentista, o médico, ensine escovar os dentes, ensine higiene, tome para si a campanha de trânsito –mesmo sendo uma escola rural –e siga neste percurso pretendendo ser tudo, exceto o básico que é o seu papel, o de promoção da aprendizagem.
Da comodidade, que resulta da consciência de ter matriculado os filhos em uma escola que pretende para si a função de ser tudo, muitos pais não se interessam em participar da vida escolar do filho. Isso parece até compreensível, afinal, quando os pais eram responsáveis pela formação moral dos filhos junto com a escola, de modo especial na educação tradicional, ele era convidado para ouvir reclamações dos filhos e, em resposta, aplicar-lhe a devida correção e ele comparecia à escola. Hoje, essa função foi assumida pelo psicólogo da escola e os desvios de conduta não aparecem mais como problemas de natureza moral, mas de ordem psicológico que, como tal, não podem motivar repreensão, ao contrário, carecem de compreensão.
Não é o caso de promoção do retorno aos moldes tradicionais. O grande problema é que junto com essa presença punitiva foi embora a presença motivadora dos pais junto às escolas. Muitos pais esqueceram-se que o Artigo 227 da Constituição Federal lhes atribui o dever de assegurar, junto com o Estado e a sociedade, a educação dos filhos. A ausência dos pais na escola Santa Rosa afeta gravemente o sentido democrático da educação que ali é apresentada. Os próprios canais já institucionalizados, como o Conselho Escolar, têm dificuldade de sobrevivência. Com isso a pobreza política configurada na ausência da participação dos pais, nos moldes abordados por Pedro Demo, concorrem para obscurecer a autonomia da escola.
Acredito que é preciso, e urgente, que repensando o papel da escola e sua especificidade, se valorize a educação não só na forma como ela acontece dentro da escola, mas também como ela é vista pelos pais dos nossos alunos de forma que estes sintam-se motivados a participarem da vida escolar dos seus filhos. Uma análise da trajetória instituição familiar sempre evidenciará a força que a família tem como educadora e como fundamento social imprescindível na iniciação percurso da vida escolar da criança.
A família é uma instituição que remonta aos primeiros tempos de vida do homem sobre a terra. É evidente que a forma como essa unidade social se organiza não tinha a mesma configuração dos tempos modernos. Mas mesmo enquanto os grupos nômades perambulavam pelas regiões frias da terra e evoluía em suas formas de produção dos meios necessários à vida, havia um estreito vínculo entre as pessoas estavam mais ligadas, de modo especial, mãe e filhos. Fustel de Coulanges (In: OZANAM, 2006, p. 288), em “A cidade antiga” deixa claro que essa união baseada nos laços sanguíneos ganhou força nas civilizações antigas e como exemplo afirma que o próprio Estado Grego e Romano nasceu do lar doméstico. Ainda na obra de Coulanges, é possível perceber que anterior aos gregos e romanos, civilizações como a assíria, egípcia e outras tiveram sua organização sócio-política fundamentada nos grupos familiares que, dessa organização, evoluíram em formas mais complexas como das tribos às nações. Cícero, historiador romano, defende também que a família constituiu o fundamento da cidade romana e a própria semente da res publica.
Portanto, a família não só deve retomar o seu papel como co-autora do processo formativo dos nossos alunos como também deve adotar para si uma luta que é de todos os envolvidos no processo educacional, qual seja, a luta de que GADOTTI (1999, p. 45) fala ao afirmar que é preciso:



Oportunizar uma escola de tempo integral para os alunos, bem equipada, capaz de lhe cultivar a curiosidade e a paixão pelos estudos, a valorização de sua cultura, propondo-lhes a espontaneidade e o inconformismo. Inconformismo traduzido no sentimento de perseverança nas utopias, nos projetos e nos valores, elementos fundadores da idéia de educação e eficazes na batalha contra o pessimismo, a estagnação e o individualismo.




Da mesma que é preciso uma mudança na postura da família, também é preciso que a escola aprenda a conjugar suas funções estabelecendo prioridade sobre aquilo que lhe é mais próprio. Jamais se pretende, por exemplo, dizer que uma escola de assentamento não deve ensinar orientação para o trânsito; o que é mais viável no caso da Escola Santa Rosa, porém, é que a escola concentre mais esforços na promoção da aprendizagem significativa, na formação crítica do educando, na preparação para a vida; na melhoria das condições de trabalho e na valorização do magistério. Nesse sentido, Freire (In: TORRES, 1979, p. 18) afirma que “A ação educativa não pode prescindir do conhecimento crítico desta situação, sob pena de se tornar ‘bancária’ ou de pregar no deserto.” De fato, não se pode esperar nenhum ânimo ou alegria de um professor que trabalha carregado pela miséria que sua remuneração o limita. Da mesma forma, só ensina com qualidade, independe de remuneração ou condições de trabalho, quem tem qualidades. É com qualidade, boa remuneração e condições de trabalho que o professor deve, na alegria de ser professor, desenvolver projetos que promovam o retorno da família ao espaço escolar, não como observadora, como comumente se faz, mas como ente participativo e condição para a efetivação do sentido comunitário e democrático que a escola deve ter.
A família como núcleo básico da sociedade deve prezar pela valorização da instituição escolar e defender, com sua presença e participação ativa, políticas educacionais que viabilizem a efetiva função social da escola, qual seja, a de formar cidadãos éticos, conscientes e com condições de intervenção na história que se faz no presente em oposição à ideologia fatalista denunciada por Freire (1996, p. 10) que tenta promover a imobilidade do ser humano frente a uma situação carente de mudança. A educação é esse instrumento de luta do homem contra a exploração, uma vez que permite a conscientização, pelo conhecimento da realidade, e oferece possibilidades de superação, que é o sentido do ato educacional. Numa abordagem da relação família e escola, na perspectiva de educação emancipadora Nérici (1972, p. 12) afirma que:

A educação deve orientar a formação do homem para ele poder ser o que é, da melhor forma possível, sem mistificações, sem deformações, em sentido de aceitação social. Assim, a ação educativa deve incidir sobre a realidade pessoal do educando, tendo em vista explicitar suas possibilidades, em função das autênticas necessidades das pessoas e da sociedade (...) A influência da Família, no entanto, é básica e fundamental no processo educativo (..) e nenhuma outra instituição está em condições de substituí-la. (...) A educação para ser autêntica, tem de descer (...) à apreensão da essência humana de cada educando, em busca de suas fraquezas e temores, de suas fortalezas e aspirações. (...) O processo educativo deve conduzir à responsabilidade, liberdade, crítica e à participação. Educar, não como sinônimo de instruir, mas de ter consciência de seus próprios atos.

Portanto, os desafios da relação entre família e escola no contexto da Escola Municipal Santa Rosa envolvem mais que a simples presença dos pais na escola, os desafios dizem respeito às condições primordiais de gestão, dentro dos princípios democráticos que lhe deve ser inerente, e de prática emancipadora por um processo de ensino-aprendizagem significante e significativo. Educação significativa para o aluno, que nele desperte interesse, que motive a aprendizagem e, principalmente que o faça perceber-se como ser ativo, representativo, crítico e criativo no contexto em que vive. É isso que deve permear o processo de ensino-aprendizagem e nesse horizonte que se deve assentar a relação família e escola.
Para haver aprendizagem significativa o aluno precisa ter uma disposição para aprender e o conteúdo escolar a ser aprendido tem que ser potencialmente significativo, ou seja, ele tem que ser social, lógico e psicologicamente significativo. Mas é na vivência das aprendizagens que elas realmente ganham sentido. O aluno aprende enquanto vive e vive enquanto aprende. É nessa perspectiva que a família é espaço de aprendizagem e de ensino e fica, portanto, evidenciado que se o educando aprende sem o acompanhamento da família, como é o caso de muitas crianças estudantes na Escola Municipal Santa Rosa, mais e melhor aprenderiam com a participação da família.

Conclusão

A escola muitas vezes é tomada pela sombra da descrença de alguns professores que pensam que se a família não dá importância para a educação dos próprios filhos, não caberia ao professor ir além do seu mero afazer. E o mero afazer incorpora toda a burocracia e fazer destituído de sentido, de amor, de cor, de alegria, de esperança e de vida inerentes à prática educacional. Embora isso possa ter alguma lógica, não é razoável porque o ofício do professor está para além dos desafios que lhe são impostos, inclusive o da ausência da família.
Se os professores da Escola Municipal Santa Rosa desistirem das famílias e das suas participações no processo educacional estarão, com isso, desistindo do processo educacional que recentemente, a título de exemplo, promoveu a primeira eleição de grupo gestor da escola, o que foi conseguido com dificuldade e só pode ser mantido com a maturação desse processo e tal maturação só é possível dentro de um processo que incorpore toda a comunidade.
Os desafios são grandes, mas os recursos também são vastos. A criatividade política, a boa vontade, a convicção em um processo educacional de qualidade que pode ser promotor da autonomia e da democracia bastam para o desenvolvimento de projetos que promovam uma reflexão dentro da comunidade capaz de resultar numa tomada de consciência. Se é possível, mais ainda é urgente e necessário.



Bibliografia


CÍCERO. Da República, Livro I. São Paulo: Edipro, 1996.
COULANGES, Fustel. A cidade antiga. In: OZANAM, Frederico Pessoa de Barros.
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/cidadeantiga.html., 2006, em 11 de junho de 2008.
FREIRE, Paulo. Investigação e metodologia da investigação do tema gerador. In: TORRES, Carlos Alberto. A práxis educativa de Paulo Freire. São Paulo: Loyola, 1979 (Coleção Paulo Freire I).
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
GADOTTI, Moacir. Escola cidadã. São Paulo: Cortez, 1999.
NÉRICI, Imídeo G. Lar, escola e educação. São Paulo: Atlas, 1972.
ROUSSEAU, Jean Jacques. Emílio ou Da Educação, Edit. Martins Fontes, São Paulo, 2004.



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