quarta-feira, 4 de novembro de 2009

São João do Araguaia-PA, uma cova para Sarney


Realmente fiquei consternado ao tomar conhecimento do fechamento da Fundação Sarney. Destinada a dois grandes préstimos, guardar a memória e o corpo do simbólico político brasileiro, prova contumaz de que “o presente repete o passado”, a Fundação, ao ser fechada deixará em aberto um dilema nacional de primeira ordem, qual seja, em que espaço poderá repousar o corpo e a memória do Senador José Sarney? De pronto, patriótico como sou, embora não tenha feito nada de vulto até agora, empenhei-me em apresentar uma solução para que corpo e memória não corram mais o risco de, em céu aberto, corromperem-se por bactérias, como, por dinheiro, corrompe-se a alma e a carne impulsionados pelo sopro de vida e pelas oportunidades que nossa torta democracia sabe oportunizar.
Entre os muitos lugares que minha imaginação vislumbrou pareceu razoável apresentar um municipiozinho que bem representa essa mistura de malogro e canalhice que nosso senador simboliza. Assim, como parte de um dos Estado em que a promiscuidade da relação PT/PMDB desenha o jogo político, não haverá protesto quando o pesado féretro flutuar sobre as mansas aguas do Araguaia, feridas por essa agressão, e repousar sobre terras paraenses. Nem mesmo haverá protesto porque o povo de São João do Araguaia é um povo mansinho, o povo do “jeitinho” cujo grau de consciência e cidadania não lhes permitem uma reação frente aos desmandos coronelistas de que Sarney é expressão maior. Uma cova em São João do Araguaia é o que, pela generosidade que tenho, ofereço à José Sarney. Tratar-se-á, eu sei, de uma permanência bem mais modesta do que aquela preparada na Fundação. Talvez, porém, mais honesta e é possível que, por este artifício, se remende mais os restos fúnebres do que, no campo da moral e do bom senso, se pode esperar da alma já perdida por anos de ações criminosas contra o Brasil em geral e o maranhão em particular.
São João do Araguaia é um município pequeno e pobre. Pequeno e pobre, qualidades preferidas das aves de rapinas sempre ávidas por projetos sociais às custas destas qualidades, mas que resultem sempre em assalto ao que é público. Aí repousará essa mão rasteira, em um lugar pequeno e pobre como muitos destes lugares do Maranhão que políticas como as da família Sarney é capaz de produzir e reproduzir. A rua que leva ao cemitério, e que também dá acesso a lugares mais agradáveis como a Praia da Jurema, é uma rua do tipo Sarney, com placa de asfaltamento e demonstrativo do gasto com a obra e nada de asfalto e o povo dos jazigos, e das casas vizinhas, será um povo deste que Sarney já conhece: povo apático que sabe quanto foi o recurso e a que se destinava e sabe até aonde foi parar, mas que não faz nada porque prefere consolidar a idéia de que o acesso a cargo público eletivo é sinônimo de aquisição do direito universal à impunidade e a um estado de amoralidade que transforma ilícito em lícito e a honestidade em inaptidão política ou incapacidade intelectual e moral posto que roubar é o acertado a se fazer. Pobre povo dos manuais, massa de manobra. Arrogantes analfabetos políticos a nutrirem a pachola dos larápios que sempre estão à espreita desse tipo de apatia. Havendo sorte conseguirei lugar para a cova em terreno defronte ao jatobazeiro, mais um simbolo do passado no presente. Assim ninguém poderá esquecer que jazem, fora e dentro do cemitério, símbolos do passado atravessados no presente.
Pedirei parada do cortejo fúnebre para última homenagem à sombra do jatobazeiro que, de frente para o cemitério, desafio os vivos e contempla os mortos. Não é uma Fundação como a do Sarney, mas é um patrimônio reconhecido por todos os joanenses. Possibilitarei, por este ato, o encontro de duas personalidades atemporais, o jatobazeiro e José Sarney. O jatobazeiro, de velho, ameaça cair mas, enigmaticamente, resiste inclusive se ressentindo contra as intenções de corte e poda atraindo eventos estranhos que castigam a comunidade a cada tentativa. Essa insistência do passado em encravar-se no presente, com seus velhos galhos, como garras, põe o futuro em risco ao precipitar-se sobre casas e pessoas numa tentativa de vingança embalada pela inveja sobre um futuro que sabe não poder alcançar.
Haverá uma dialética nesse encontro. Sarney, também um passado velho, emerge de quando em quando, como o monstro da lagoa, para rebelar-se contra toda esperança de superação da velha forma oligárquica de exercício do poder ameaçando, com isso, o futuro de uma democracia amadurecida e efetiva, futuro sempre adiado por este passado que emerge no presente para adiá-lo. Os últimos eventos no cenário político brasileiro tendo o velho como protagonista prova que 23 anos depois do Regime Militar a democracia brasileira ainda é ouro de tolo. A presença de Sarney evoca uma realidade que a intelectualidade brasileira pretende do passado e passada, as unhas famintas do clã Sarney, ao contrário, trazem à luz das lentes pós-modernas a fatalidade das formas oligárquicas de governar e põe em cheque o contínuo progresso da nossa história. Ao lado da urna eletrônica o clientelismo, o uso privado do que é público e outros elementos comuns ao ambiente não-democrático.
Quando baixarem o corpo à sepultura sentirei que memória e corpo estarão bem preservados. Pelos bairros mais pobres de São João do Araguaia, nas condições da Escola em que trabalho, em quase todo o Estado do Pará, em todo o Norte, Nordeste, Centro Oeste, Sul e Sudeste, em todas as favelas, barracos pobres e nos rostos das crianças abandonadas sempre se poderá rememorá o jeito Sarney de promoção do bem-estar social. Não há melhor depositário da memória do que o olhar sobre o resultado produzido pelas ações de quem se quer recordar. Não há melhor forma de lembrar Sarney do que olhar para a pobreza no Brasil. Quanto ao corpo, certamente será como um destes que seca dentro da urna porque os germes, em sua dignidade, resignam-se a consumi-lo.
Por ora, o jatobazeiro e Sarney são existências dialéticas. Vivem como uma negação. Negação porque trazem ao presente o passado que se supõe superado. Negação porque transitam no presente, mas a base de sua existência é o passado já passado. Negação porque representam um veneno que contamina o presente retirando deste sua dinâmica e o condicionando à repetição do passado. Todavia são afirmações enquanto pressuposto de inteligibilidade realidade. O velho jatobazeiro, com toda a superstição que o envolve e José Sarney com o histórico de corrupção de que é síntese oferecem as lentes mais próprias com que se pode e se deve ler o Brasil de hoje embora encarnem elementos de uma história pretensamente do passado.