quinta-feira, 4 de abril de 2013

"DESCULPA": CORDIALIDADE OU NEUROSE PAULISTANA

Quem chega na cidade de São Paulo pela primeira vez, e precisa pegar o Metrô no meio da manhã, sobretudo na linha amarela, como foi o meu caso, certamente ficará impressionado com a modernidade, conforto e qualidade desse serviço de transporte público. A cidade, em sua peculiaridade de metrópole, é toda ela impressionante. Cores, sons, etnias. Esse, diria, é lado colorido de São Paulo. Mas isso não é São Paulo. A cidade de São Paulo é, preponderantemente, um concreto frio, uma aura nebulosa e um povo que padece de uma neurose social.

Estação da Paulista e Consolação em horário de pico.
Desde o primeiro dia aqui fui obrigado a conviver com esse paradoxo. O metrô é moderno, mas o seu uso é bárbaro. O ímpeto de grandeza, a imponência dos prédios, intrínseca à sociedade do concreto não supera a miséria nas ruas pontilhadas de usuários de drogas, prostitutas e outras figuras do submundo comumente descritos em literatura policial barata. 

Para além dessas contradições, cada vez mais acentuadas em nosso país, me causou impacto a neurose do "desculpa" com que o paulistano se refere a quase todo tipo de contato com o outro.

Num primeiro momento isso pode parecer simplesmente cordialidade e o brasileiro, como bem nos demonstrou Sérgio Buarque de Holanda e tantos outros estudiosos de nosso povo, é "o homem cordial" por excelência. No entanto, todo excesso revela, ou esconde, alguma coisa. Aqui em São Paulo, se você olhar pra pessoa, ela te pede desculpas. É impressionante! Se minha mochila toca em alguém, a pessoa, que na verdade deveria se incomodar, pede desculpa; se meu braço roça de leve, a pessoa pede desculpa. Aqui há sempre um pedido de desculpa para tudo, em todo lugar e a todo momento. 

Então, de que os paulistanos se desculpam tanto? Acredito que da sua própria falta de humanidade. As pessoas aqui estão quase sempre correndo. São formiguinhas que correm juntando folhas, juntam, juntam e juntam folhas. Elas levantam ainda madrugada, pegam a o trem, metrô ou o ônibus lotado e vão juntar folhinhas. Ao final, casadas, voltam, como gado, ao seu covil e esperam um novo amanhecer para voltarem a juntar folhinhas.

Ninguém fala com ninguém. Olhares perdidos, sabe Deus em que pensam, se é que pensam. Olhares perdidos, bocas mudas e mentes bloqueadas pelo último volume do aparelho sempre ao ouvido. Nossa, como admiro a modernidade paulistana! 

Aqui, onde os nordestinos são marginalizados em função de sua origem, nordestina, ouve-se muito outras línguas: orientais, alemã, francesa, espanhola e principalmente inglês. O paulista tem orgulho dessa multiplicidade de povos, desde que esteja excluído o elemento brasileiro-nordestino, que como afirmou uma internauta recentemente, deviam ser afogados nas águas poluídas do Rio Tietê. 

A essa altura o leitor pode estar pensando "bobagem, o paulista pede desculpa porque é educado". Talvez seja isso mesmo. Mas, provavelmente pelo espírito inquieto de historiador, questiono, não é contraditório que um povo tão indiferente ao outro, enquanto sujeito humano, um povo tão bárbaro na forma de concorrer, mesmo quando a concorrência se limita à ocupação de um lugar no metrô, ao mesmo tempo peça tantas desculpas? 


A vida em círculo, sempre o mesmo círculo.
Esse povo vive num labirinto. A modernidade construiu-se na convicção de superar, pela certeza de verdades dadas, o labirinto da subjetividade, da religiosidade e da pura superstição. Mas a modernidade nos pôs num labirinto. O moderno é um labirinto. Quisera eu conhecer uma noção mais aprimorada, que melhor signifique esse sentido de labirinto, de existência medíocre, de sentido paradoxal à existência humana que essa forma circular, monótona, nebulosa e fria de vida característica dos paulistanos.

E desde Nietzsche sabemos que o labirinto é o que há de melhor na vida. Desde a leitura de Nietzsche apaixonei-me pelo labirinto. O labirinto em Nietzsche é existencial, por isso reflexivo, desafiador, criativo. O labirinto era possibilidade. Aqui, no entanto, o labirinto tem outro significado, é apenas um círculo vicioso, estéril e frio. A vida em círculo, sempre o mesmo círculo.

A melhor tradução da "vida de gado" do Zé Ramalho.