segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A GUERRILHA DO ARAGUAIA: HISTÓRIA E MEMÓRIA

Sede da ATGA em São Domingos do Araguaia-PA
                    
Desde agosto de 2009 tenho o privilégio de ter um contato mais amiúde com o povo da Região Sul do Pará, mais especificamente os povos que vivem entre Marabá-PA e São Geraldo do Araguaia-PA. Em São João do Araguaia-PA, que está nesse eixo citado, tive um colega de trabalho que perdeu um braço durante a Guerrilha do Araguaia e que, junto com outros colegas, participa da Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia, ATGA, com sede em São Domingos do Araguaia. O contato com essa história viva, embora já passado, impôs, quase involuntário, uma reflexão sobre história e memória, de um lado, e uma reflexão sobre a significação da história do outro.
Nasci em Piraqué, que todos nós até hoje chamamos Piraqué,porque esse é o nome histórico, resistindo contra o Piraquê inventado pela ficção dos que desconhecem o valor da historicidade. Piraqué em idos da década de 1970, 1974 para ser mais preciso, era apenas um povoado que integrava o município de Xambioá, norte do Estado de Goiás. Antes do meu nascimento, entre o final da década de 1960 e os primeiros anos de 1970 minha família havia residido entre São Domingos do Araguaia e São Geraldo do Araguaia, municípios do Sul do Pará. Alguns anos depois de meu nascimento fomos morar em Xambioá e aí vi nascer o Estado do Tocantins e confundir-se a infância do Estado nascido com a minha própria. Em Xambioá, já Tocantins, estudei até o início do Ensino Médio, quando, já seminarista ligado à Diocese de Tocantinópolis-TO, depois Conceição do Araguaia-PA, migrei por algumas cidades da região até concluir o Ensino Médio em Miracema do Tocantins.
Hoje, professor-aluno apaixonado pela história, o maior fascínio vem da minha própria realidade anterior, aquela que circundava a minha infância e a dos meus pares e que me passou completamente despercebida. O que me foi negado conhecer daquele presente, enquanto presente, já é matéria para estudo. Porque, anos depois, na década de 1990, esse ainda era um passado ignorado no espaço escolar é outro tema a ser aprofundado.
As explicações mais simples certamente darão conta de que não pude conhecer o mundo da minha infância porque o Brasil, quase por completo, passava em branco para a sua população. Tudo bem, mas nenhuma repressão é suficiente para apagar os seus vestígios e os vestígios constituem os fragmentos necessários para a construção, e reconstrução, da estória e da história porque tanto o meio popular constrói a versão que torna inteligível para o seu mundo aquilo que lhes afigura desconexo, quanto os historiadores constroem a teoria a partir dos fios soltos, dos vestígios deixados mesmo quando a intenção é não deixar rastros.
Quando criança aprendi com minha mãe, que viveu todo o temor imposto pelos homens do exército, as experiências fantásticas de homens e mulheres místicos que tanto tinham o poder de encantar-se quanto de encantar e que depois foram mortos pelo exército porque tudo o que eles faziam era para enganar o povo e tomar o Brasil para o exterior. A, hoje sabido, baiana Dinalva Teixeira, era a conhecida Dina Azul que como dizia minha mãe, ajudava as pessoas e depois se transformava em borboleta, de modo que desaparecia sem ninguém saber para onde. O Osvaldão, cuja identidade revelada é Osvaldo Orlando da Costa, tinha o corpo fechado, só podia ser morto se fosse surpreendido dentro d’água. Lembro de estórias sobre uma guerrilheira que ajudava mulheres que tinham dificuldades de parto e sabia curar as pessoas. Minha mãe lembra que ela era muito boa, sabia encantos que ninguém conhecia, mas chegou um tempo que ninguém sabia mais como encontrá-los e eles foram deixando de aparecer para curar as pessoas ou para fazer justiça porque o exército já tinha explicado pra todo mundo que eles estavam lá para tomar o Brasil.
Vivi e estudei naquela Região. A história oficial nunca foi muito clara sobre esse passado de nossa história. Mas esse episodia evidencia o quanto é importante que a história regional ganhe espaço no currículo escolar. Estudei muito sobre o período colonial, mercantilismo; as revoluções francesa e americana; a primeira e segunda guerras mundiais e até sobre a globalização, mas o que aprendi sobre a Guerrilha do Araguaia vivendo ali às margens daquele rio e dentro daquela história? O pior é que ainda hoje, na Escola Estadual Dr. Abel Figueredo, em São João do Araguaia-PA, que tem um funcionário que perdeu uma mão durante a guerrilha com a explosão de uma granada, os alunos pouco sabem e o currículo nada prevê sobre o ensino dessa história. E os sobreviventes lutam em associações e outras organizações enquanto nós, homens e mulheres brasileiros que têm direito ao passado ficamos à margem desse conhecimento tão importante.
Nesse ponto percebo o quanto a memória tem a nós ensinar enquanto fonte para a história. A pesquisa oral precisa ser melhor explorada no sentido de resgate dessa história. A falta de uma pesquisa criteriosa nesse campo resulta em absurdos como o que li recentemente num blog onde se lê que a guerrilheira Dina popularizou-se por ser a primeira mulher a entrar no rio Araguaia de biquíni. Que bobagem! Nunca ouvi isso da população local, da qual faço parte. Além do mais, quem conhece os ribeirinhos da região sabe que quanto mais isolados mais o uso de pouca roupa na lide com o Rio é natural.