sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Velha Contrabandista


Tudo que envolve sentimento exige sempre algum encantamento inicial. A leitura é uma dessas atividades que, para a formação de um bom leitor, necessita de encantamento. É certo que nem sempre a leitura será puro prazer, no caso da leitura de artigos e textos acadêmicos de um modo geral, a leitura racional ou científica, o motivador não será apenas a disposição prazerosa de ler, mas a necessidade ante as exigências de pesquisa. Todavia, mesmo nesse caso, em se tratando de um bom leitor, tudo estará mais facilitado. Então, se é preciso um bom começo, lembro da minha experiência inicial, do meu encanto inicial com o texto da velha contrabandista.
O livro não era meu, era da minha mãe que estava cursando pedagogia em Goiás. Entre seus materiais de faculdade encontrei esse texto numa apostila. O autor era, ainda me lembro, Stanislaw Ponte Preta e era a história de uma velhinha que atravessava a fronteira pilotando uma lambreta e carregando na garupa um saco de areia. Depois de muito parar a velhinha para fiscalizar o que havia dentro do saco e só encontrando areia, o fiscal da alfândega lhe prometeu não denunciá-la se ela lhe contasse o que contrabandeava, a velhinha então lhe falou que era lambreta. Essa história simples me despertou para a leitura. 
A leitura é importante não só por possibilita acesso ao conhecimento do que ainda desconhecemos. A leitura é importante porque ajuda a desenvolver o senso crítico, melhora o vocabulário do leitor, melhora seus recursos argumentativos, torna o indivíduo mais entendido sobre o mundo. Paulo Freire, num livro intitulado a importância do ato de ler esclareceu de forma muito simples como a leitura está ligada às condições de exercício da cidadania. Ele chama de empoderamento o que ocorre com o leitor, o que, em outras palavras, significa a pessoa pode agir sobre o mundo conhecendo melhor esse mundo, seus direitos, suas possibilidades, etc. por isso, torna-se mais poderoso diante do mundo e daquilo que lhe oprimia. E para Freire nem precisa de escolaridade para se iniciar o mundo da leitura porque, segundo ele, a leitura do mundo precede a leitura da palavra.
O nível sensorial é um primeiro passo da leitura, como bem descreve Ítalo Calvino. Esse seria aquele momento que tocamos o livro, sentimos o seu cheiro, sua espessura e sua cor.  Como descreve Gustave Fleubert, na crônica publicada na obra “paixão pelos livros”, seu personagem Giacomo, melhor que ninguém, representa essa fase da leitura. Ele era apaixonado pelo livro enquanto objeto. O livro com seu cheiro, sua espessura, sua cor e, no caso dele, sua raridade, era no que consistia toda a sua paixão. A intensidade da leitura para ele estava circunscrita ao objeto livro e seus aspectos físicos.   
Mas é preciso ao bom leitor sempre superar o nível sensorial. É preciso ler, e com a leitura vem o gostar ou antipatizar. Essa é o segundo nível, o emocional. E porque nunca somos neutros, a leitura nos provoca sentimentos mesmo quando se trata de um texto técnico; estamos sempre discordando, ou concordando, nos identificando com uma idéia e repelindo outras. É a parte emocional da leitura.
Mas, se é possível uma leitura mais apaixonada de um romance, um poema, um conto ou uma crônica, no caso dos textos científicos o que deve nos guiar é a racionalidade e a convicção de que o próprio autor produziu o texto objeto da leitura com um fim pré-determinado, ou seja, o texto é lido em função da informação científica que transmite. A informação é o próprio fim último do texto. Quando lemos um artigo acadêmico sobre a produção literária goiana o que importa não é tanto nossa opinião, quanto a justeza das informações do autor do texto. Nesse tipo de texto, no entanto, diferente dos outros, por requerer uma compreensão mais apurada, e por nem sempre ser de fácil captação do sentido, quase sempre exigem uma releitura. O ler novamente é muito importante em se tratando de texto acadêmico. Às vezes a segunda, ou terceira leitura, ajuda a entender algo que, no primeiro momento nos pareceu detalhe, mas que nesse momento posterior, percebe-se ser fundamental para o sentido completo da leitura. Em muitos casos, além da releitura ajuda muito leituras diversificadas sobre o mesmo tempo; seja leitura de comentadores, ou outros trabalhos do mesmo autor.
De qualquer modo toda leitura, inclusive a acadêmica, requer senso crítico. E da mesma forma, sem o gosto pela leitura todo ato de ler parecerá um fardo que por ser muito pesado quase sempre terá poucos resultados. Para quem não gosta de ler, ler uma vez será um tédio, a releitura então, será desperdício completo. É preciso, por isso, que nos entreguemos mais à prática da leitura aceitando o poder que ela tem de exercitar nossa imaginação e que pode ser um substitutivo às novelas, filmes de pouco conteúdo e outras frivolidades com que perdemos tempo no dia-a-dia. A leitura de “a velha contrabandista” teve esse poder, de exercitar minha imaginação. Imaginava lado de humor e a esperteza da velhinha e isso me fez gostar do texto. Quanto ao texto acadêmico, sempre tiro melhor proveito quando faço uma segunda leitura.



Bibliografia:

CALVINO, Italo. Se um viajante numa noite de inverno. (Trad.Nilson Moulin). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
FLEUBERT, Gustave. Bibliomania. In: D`ALEMBERT (et. alli). A paixão pelos livros. 2a Impressão. São Paulo: Casa da Palavra, 2000.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 41. ed. São Paulo: Cortez, 2001.