terça-feira, 31 de julho de 2012

A UEG E A IDADE MÉDIA: CRÍTICA ESCRITA EM 2007, QUANDO AINDA ERA DISCENTE DA INSTITUIÇÃO

Embaixo dos sinos, embaixo da cruz, embaixo de tudo.. o saber que nada sabia.

A Universidade Estadual de Goiás tem sido tema dos meus discursos e escritos desde tempos anteriores ao meu primeiro contato com alguns professores e alunos que hoje formam o Fórum de Defesa da Ueg e que já em 2005, ocasião do nosso encontro, denunciavam, num seminário na Cidade de Goiás, as mazelas que hoje pretendem superar. Não posso dizer que sejam apenas discursos pessimistas porque florescem grandes figuras dentro dessa instituição que se opõem à forma orgânica como a UEG se dá às realizações masoquistas dos prazeres de seus mandatários.
Ingressei como estudante na UEG em 2004. Anterior a esse ingresso, que por imprecisão de um edital se fez em dois cursos: História na Unidade de Uruaçu e Pedagogia Plena Parcelada no então Pólo Universitário de Niquelândia, conhecia a UEG pelas visitas que fazia aos amigos acadêmicos no Pólo de Niquelândia. Já naquelas visitas me parecia absurdo perceber que muitos licenciandos, repito: muitos, na reta final do curso não tinham competência ou habilidade para, sequer, escrever um texto com alguma clareza, ou produzir uma redação com coesão entre parágrafos e objetivo inteligíveis. A decadência era, e ainda é, de forma tão flagrante que frases pronunciadas no estilo: “eu não ouvo bem” ressoam, sem a menor cerimônia nas salas de aula do curso de Pedagogia.  Isso me fez crer naquele período que a Universidade não estava produzindo o mínimo do que dela esperava a sociedade goiana, pelo menos que eu esperava. Hoje essa convicção deixou de ser impressão para tornar-se fato sentido e experienciado.
Já via desde aqueles tempos que os cursos conhecidos como “parcelados”, não falo só de Pedagoga, constituíam a decadência elevada à potência máxima. Agora, escrevo para comunicar um aditivo ao caso específico de Niquelândia que a mim, humilde participante da história e dela consciente, é uma prova de que a UEG conseguiu superar as fronteiras do tempo e ressuscitou o que havia de mais cientificamente desprezível na Idade Média: a academia regada a missa e cantos litúrgicos.
A administração municipal em Niquelândia sempre demonstrou boa vontade em firmar parcerias com a UEG. Nesse sentido tem disponibilizado espaço e custeado despesas com a universidade. Assim, por muito tempo as aulas da universidade foram ministradas no prédio da Escola Municipal São José que chegou a fechar o turno noturno para ceder todo o espaço para os cursos seqüenciais noturnos que vieram para Niquelândia com a ascensão do Pólo à categoria de Unidade.
Nomeada diretora, a senhorita de terceira idade, Lenir, católica fervorosa, cuidou em transferir a UEG para a sacristia da Igreja São José, de Niquelândia, na qual ela figura como beata. Tudo pareceu, pelo menos aos olhos dela, muito harmônico: a sala da direção, um mini-oratório ( com cantinho pra santo e tudo mais), do lado da sala a matriz e as recitações de terços, ensaio de cânticos, missa, casamentos, batizados, reuniões, etc. e cercado por tudo isso, sem ter como escapar, a ciência.
Dizer que a igreja é um mal para a educação está além do meu julgamento. Não posso dizer que tenha sido um mal nem mesmo na Idade Média quando ela, a igreja, tinha a posse da verdade e dizia quem e como se podia ter acesso a essa verdade. Não faço juízo sobre aquele período porque apesar do aprisionamento do saber é fato reconhecido que a tradição cristã superou a expectativa romana e germânica no que se refere à educação infantil criando espaços que se popularizaram como verdadeiros “jardins de infância” nos mosteiros, o que, naquele momento histórico era um progresso na educação. Houveram as bibliotecas, as primeiras universidades. A filosofia escolástica. Mas, reconhecido o mérito, é preciso pensar em quantos arderam na fogueira da inquisição por buscarem um conhecimento desvinculado dos mosteiros e ressuscitar a discussão sobre os propósitos da escolástica que sendo uma corrente filosófica interessava-se mais por responder às contestações dogmáticas que pelo conhecimento em si.
Não julgo, reflito. Humilde só me concebo o direito à reflexão, e isso considero importante. Olhando para os traços culturais da Idade Média eu não posso atribuir valores aos fatos, mas posso dizer que estamos bem próximos daquela antiga submissão da ciência à fé. E isso, fora daquele tempo, é lastimável.
Qualquer um pode dizer que os acontecimentos em Niquelândia são microscópicos considerando as dimensões da UEG, com suas dezenas de Unidades e milhares de alunos. Eu concordo. Mas, por outro lado, estamos diante de um fato que estrapola o limite da mera coincidência. Se o leitor pensar mais atentamente e ler as palavras sem pré-julgamento perceberá facilmente que as circunstâncias provam que assim como a igreja medieval defendia a ausência do espírito crítico em defesa de um consenso a seu favor, da mesma forma agem os mandatários da UEG. O perigo de alguém conhecer e se voltar contra as verdades dogmáticas corresponde ao risco de uma formação acadêmica com qualidade que resulte em discentes e docentes atuantes e contestadores à forma orgânica como a UEG se dá às decisões de seus senhores e donos.
Para os céticos ainda ponho a configuração geográfica de Niquelândia na correlação com a geografia urbana medieval no que diz respeito aos espaços que nos interessam, agora está tudo próximo: igreja, cemitério e academia.  
Para além de jogo de palavras e comparações é preciso se revoltar. É absurdo que seja o espaço acadêmico um exemplo de colaboração com a crescente alienação de uma sociedade que, contrário a isso, precisa cada vez mais se situar para reagir contra as injustiças, a degradação do meio ambiente, a degradação moral e intelectual e contribuir para a construção de um mundo mais equilibrado em muitos sentidos. Não serão, porém, as aulas entre-cortadas por sinos, cantos, pregações e demais ritos litúrgicos que irão cumprir esse papel.
Como eu tenho dito, questionar é preciso, aceitar não é possível.