segunda-feira, 4 de julho de 2011

As Formas de um Anjo

 Algumas lembranças do meu passado já estão desbotadas. É engraçado como o tempo torna gasto aquilo que um dia foi a base do nosso cotidiano. Minha infância foi uma sucessão de fatos extraordinários dos quais agora eu lembro por um prisma muito opaco. Não foi uma infância brilhante no sentido econômico, mas foi rica no sentido existencial. Foi num período de ingenuidade, tal qual uma infância estendida para além da idade normal, que eu forjei os valores da minha maturidade. Foi sobre a imagem daquele anjo que me descobri no mundo.
Sartre nâo é o único filósofo a defender que nos reconhecemos enquanto existente a partir de uma outra existência que nós é oposta. Eu nunca entendi a existência daquele anjo como uma forma de adversidade à minha própria existência. É bem verdade que ela encarnava valores estéticos, econômicos, sociais e morais em relação aos quais me restava uma minúscula esperança. Mas eu não a via pelo ângulo das minhas carências, da minha "imcompletitude"; a percebi como um presente, como uma dádiva de Deus para que num mundo tão atribulado, me fosse permitido um refrigério: a imagem dela, o riso dela, o som de sua voz.
Servimos a Deus na igreja de são miguel arcanjo, como coroinhas, e brincamos de "salve latinha" na avenida presidente vargas, rua onde ela morava até o nosso último contato. Eu era bem jovem, e bem ingênuo. Ela era uma criança completamente. Mas eu aprendi a amar, como de outra forma não poderia ser. Eu muito pobre, ela pertencente a uma família de classe média alta. Ela linda, deslumbrante em formas e em gestos; uma obra prima enquanto matéria e anjo digno das descrições típicas da literatura romântica do século das luzes. Ela um anjo loiro e eu pobre e mestiço.
Essas diferenças numa cidadezinha como Xambioá ganham dimensões de fronteira, de lados opostos, de razão pra chacota. Eu nunca pedi nada. Mas eu sempre tive tudo. Eu sempre tive a visão daquele anjo.
Em função desse amor lapidei meus passos. Devo ter cometido muitos erros. Mas foram todos justificáveis dada a boa inteção por trás deles. Quem me estragou não foi nenhuma ambição ligada à posse desse anjo, mas minhas relações com a igreja -isso, porém, não vem ao caso agora -certo é que diante de um ente enviado por Deus para me conferir esperança, eu continuei humano.
Mas a missão foi cumprida. Humano, sonhei. Errei, mas venci e edifiquei bens e vitória individual e coletiva. Aquele anjo não se humanizou pra mim, mas me divinizou também quando inspirou-me poesia, canções que corriam no meu sangue como um riacho correndo para um rio maior; aquele anjo tornou homem quem era um menino e tornou entendido quem quase nada conhecia.
E depois de tudo isso o anjo tornou-se apenas a Helen. Tudo muito humano. Nada imperdoável. Reminiscência de um fato humano em um parágrafo initelígivel para o leitor. Um parágrafo humanizador do anjo e de mim. A metamorfose necessária porque somos, na verdade, todos humanos, "demasiado humanos".
Me disseram recentemente que a mulher casou-se. Isso parece bom. Mas ainda hoje, quando penso nessa história, me questiono se o anjo não foi sempre mulher, afinal, ela sempre, desde criança, teve sua formação de hoje como a determinação do seu futuro, mesmo quando ainda não passava de um anjo.
De qualquer modo se eu pudesse te dizer algo anjo-helen, te diria que você, mais que qualquer outra pessoa, forjou um homem. Da ingenuidade do meu mundo, que não cabia mais infância por uma questão de idade, você contribuiu para o surgimento de um homem que hoje discute política com deputados, senadores, prefeito; que tem uma possição privilegiada na sociedade onde reside, mas que abre mão de tudo, inclusive dos privilégios financeiros, para se pôr do lado dos mais fracos, para se envolver em questões sociais; um homem que sonha com um Brasil melhor e, todo dia, faz alguma coisa para que pelo menos a comunidade à qual está integrado seja melhor.
Obrigado.