domingo, 3 de março de 2013

SOBRE A QUEDA DO PAPA NAZISTA: SERIA O INÍCIO DO FIM?



O clero católico e o problema da pedofilia: temas recorrentes.
Enquanto ex-seminarista aprendi, na convivência com muitos padres, o quanto de chiqueiro há na igreja católica. Não são palavras de um revoltado, sempre lidei bem com isso. O meu primeiro choque de realidade – já fui crente fervoroso – foi quando ouvi de D. Aloísio Hilário de Pinho, hoje bispo Emérito da Diocese de Jataí, que eu estava na  igreja para obedecer e não para questionar, e cabia a ele, enquanto bispo, dizer o que era certo ou errado. Esse mesmo bispo não soube tomar qualquer atitude quando o padre Ivan, por ocasião da reitoria no Seminário Leão XIII, de Tocantinópolis, passou a assediar os seminaristas e, mais tarde, já na paróquia de Wanderlândia abusou sexualmente de várias crianças. Foi preciso que a comunidade invadisse a casa paroquial e desse uma surra no padre para que o bispo tomasse alguma atitude. Mas que atitude, a que a igreja toma quase sempre, a saber, “encobrimento”.

A pedofilia tem a maior praga, porque tem sido a praga tornada pública. E esse problema só tem se tornado público em função do preconceito contra os homossexuais, ou seja, é somente no limite da intolerância que a sociedade ocidental ousa macular a “dignidade do padre” e por consequência da igreja. Vi, nesse sentido, alguns colegas que foram dispensados, quase sempre às vésperas da ordenação, por algum problema ligado à homossexualismo descoberto a partir do assédio. Todavia, quase nenhuma pena incidia sobre os padres que engravidavam as jovens e depois as abandonavam por força da intervenção complacente do bispo que os transferiam de paróquia ou os mandavam fazer um curso na Itália.   

A essa altura me parece importante esclarecer ao leitor que não sou evangélico, é verdade que também não sou católico. Aliás, sou católico, mas não naquele velho modelo “do tipo papador de hóstia”. Então, não é porque sou inimigo da igreja, rótulo aplicado a todos os que fazem qualquer análise realista, por isso crítica, que estou escrevendo esse texto.

Penso, simplesmente, que a renúncia de Bento XVI deve oportunizar a reflexão. Ele próprio deve ser objeto de reflexão. Nesse sentido, acredito que o segredo dos documentos que estiveram sob o poder de Paolo Gabriele certamente devem revelar um crime muito grave praticado por Joseph Ratzinger. A mente pouco pensante do brasileiro médio jamais poderá imaginar o quanto Ratzinger ambicionou o cargo máximo na Igreja. Qualquer um, em consequência, deduziria que ele jamais abandonaria essa conquista se não houvesse um motivo que o justificasse. E qual seria esse motivo? O vazamento de documentos secretos é uma pista importante. Outra pista está na trajetória do Ratzinger.

Saudação naxista atribida Ratzinger por Eric Fratini
Em pouca coisa o Cardeal Joseph Ratzinger se diferenciou, na sua prática pastoral, do fervoroso jovem que pertenceu à juventude hitlerista. A igreja tenta amenizar essa fase da vida do hoje ex-papa, mas a verdade é que ele não só serviu a Hitler, como continuou, quando já sacerdote de carreira prodigiosa, alimentando os ideais da implacável disciplina nazista. Por isso até eu, que sempre fui muito cético acreditei se tratar mesmo do fim do mundo quando soube da sua escolha como papa. Não era o fim do mundo, mas parece ser o começo do fim de uma igreja que já nasceu decrépita doente.

Quando li a alguns meses que o mordomo do papa, Paolo Gabriele havia sido detido por estar de posse de documentos confidenciais, percebi na sequência dos fatos, com o indulto ao mordomo, que havia algo mais. Os sinais abundaram. Na verdade, na mesma ocasião da detenção do mordomo, o presidente do Banco do Vaticano foi obrigado a demitir-se e, na Itália circularam cartas e documentos vazados de correspondência da alta cúpula em que as intrigas denunciavam todo tipo de crime. O Vaticano, de fato, parece ter recuperado o sua característica enquanto espaço de adúlteros, salteadores e pedófilos.  

Mas qual seria a diferença em relação a outras igrejas. É o próprio cristianismo que está em crise. O cristianismo se capitalizou e como o capital não preza pelo valor humano, as denominações cristãs ser tornaram a síntese daquilo que combatem. O inferno é o capitalismo com sua lógica da exploração, da ganância, do lucro a qualquer preço, da desumanidade. E é isso tudo, e mais alguma coisa do mal, que as igrejas se tornaram. O que é o Valdemiro Santiago senão um abutre à espera da carniça alheia? O que é o Edir Macedo? O Silas Malafaia? Todos abutres sobrevivendo da carnagem última de almas desesperadas.

O Vaticano é um esgoto macro cuja história demandou mais de um milênio. Mas, temos em muitos lugares pequenas estruturas de poder encrustada parasitariamente no que chamam de cristianismo. É a verdade foucaultiana do poder por toda parte. O Ministério Madureira da Assembléia de Deus, e outros muitos ministérios e igrejas funcionam com a mesma lógica da Igreja católica e o jogo de poder é tão sujo e violento quanto. O Ministério Madureira é um feudo e está reservado um lugarzinho no inferno para os seus mandatários.

Já dizia Raul Seixas "pois se a fé remove montanhas, também traz grana e um monte de mulheres". Essa é uma verdade universalizada no cristianismo atual. Jesus Cristo significa dinheiro em todos os sentidos. É para ter saúde e dinheiro que as pessoas procuram as igrejas e para retirar dinheiro do povo que as igrejas são abertas, ou mantidas.

Caiu em desuso o cristianismo engajado. No caso católico, a própria igreja tenta, como sempre o fez, e Ratzinger foi exemplo disso, expurgar dos seus quadros os sobreviventes da igreja latina que se identificava com os clamores do povo. Por sua vez, os pentencostais, chamados evangélicos, representam o que há de mais apático na sociedade; esperam uma solução caída do céu diretamente sobre a cabeça de alguns privilegiados, aqueles que na doutrina calvinista, estavam predestinados aos gozos manifestos da preferência divina.