domingo, 6 de novembro de 2011

A CIDADE MAIS VIOLENTA DO BRASIL: MARABÁ - TEXTO PARA ALUNOS DO 2 ANO DA EEGSP


Quando estava em Goiás ouvia dizer que Marabá, e região, era o novo Eldorado do Brasil, o que inclui, é claro, Eldorado dos Carajás. Marabá é, hoje, a terra das oportunidades, me diziam. E chegando aqui, sobretudo na Orla do Rio Tocantins, ponto preferido para a confraternização dos laureados com o progresso que me diziam existir aqui, percebi que as oportunidades de fato existem. Depois do primeiro mês de residência na Região, ainda morando e trabalhando em São João do Araguaia, 45 km de Marabá, pude perceber claramente que essas oportunidades existem, mas não para o povo sul-paraense. E não se trata de fundamentar o discurso de que aqui não há a mão de obra qualificada para o serviço, o fato é que, como afirma a reportagem da Veja, as grandes obras em Marabá e região têm o objetivo exclusivo de criar infra-estrutura para o escoamento das riquezas naturais do Sul do Pará, só isso. 
  
O sociólogo Raimundo Gomes da Cruz Neto definiu muito bem o desenvolvimento vivido por Marabá, é um desenvolvimento de fachada cuja face oculta é a produção da miséria em larga escala. A violência é fruto disso. Mas não se trata apenas da violência física, em Marabá os índices de mortalidade infantil são, segundo Veja, maiores que aquele registrado nas regiões mas pobres do país; saneamento é quase inexistente e a coleta de lixo é uma piada. O povo vive entre enxurradas de lixo carregadas pela chuva em valas que a prefeitura chama de rua.

Os dados da violência física falam por si. A média de homicídios/ano em Marabá é de mais de 250. A pesquisa da Veja, que utiliza dados do IBGE indica que para cada grupo de 100 mil habitantes a média em Marabá é de 125 óbitos, como o censo de 2010 indicou que a população Marabaense era de 224,014 habitantes então a proporão de mortes aumenta em cerca de 125%. Mas a configuração dessa matemática macabra não considera apenas as execuções da polícia, disputas por drogas, assaltos, ou outras ocorrências similares, leva em conta também óbitos ocorridos em decorrência de acidentes, por exemplo. O fato, no entanto, é que, independente da ocorrência, se o sistema público de saúde em Marabá funcionasse, certamente esses dados seriam de menor impacto.

Mas, Marabá é, efetivamente um município rico. Não que o povo seja rico, o povo é pobre, mas o município é rico. A arrecadação em Marabá, considerando os municípios de mesmo porte, é estrondosa. Só para a educação o Governo Federal repassa à municipalidade quase 100 milhões a cada ano. A saúde também recebe recursos quase astronômicos de Brasília. Existem verbas sendo liberadas para o município através de emendas parlamentares e o próprio governo federal toca a principal obra na cidade, a duplicação do trecho urbano da transamazônica. Então, além de ser um município rico, porque a arrecadação municipal é milionária, Marabá ainda tem sido carregado no colo pela União. 

Em que pesem essas considerações e os dados oficiais que estão acessíveis a qualquer cidadão, ainda tenho lido em meios de comunicãção oficial que o prefeito de Marabá foi classificado como um dos 200 melhores prefeitos do Brasil. Não é muito contraditória a realidade dos fatos e o que se diz da realidade? Como entender a co-existência de tanto dinheiro público e, ao mesmo tempo e no mesmo espaço, tanta pobreza e violência? Como entender um dos melhores prefeitos do Brasil administrando tanta grana e o povo sem qualquer serviço de qualidade? Sinceramente, não entendo.

Mas o problema não é apenas entender o paradoxo da realidade e do que se diz sobre ela. O problema é perceber que o legislativo municipal, com execeção de uns raros, é omisso, principalmente porque usa o mandato legislativo em causa própria ou dos seus apadrinhados. O problema é que, olhando o cenário político local, a perspectiva é quase desesperadora. 

E eu não sou político. Sou professor de história e cidadão, e por essas duas qualidades sou também político. Não me interesso pelo vínculo político-partidário próprio de todos os que falam de política e das mazelas produzidas pelo desvelo com o que é do povo, mas enquanto cidadão, me penso sempre fazendo parte da mudança. A história é feita agora, na ação consciente dos sujeitos que a produzem. Sou historiador-cidadão que participa da construção do amanhã, agindo no hoje depois de refletir sobre os erros de ontem. Nesse sentido, de efetivamente tomar tino do papel que a democracia nos relega, penso que o mais urgente é que o povo marabaense deixe de ser povo e se transforme em gente, porque povo é apenas massa de manobra.