quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

BRUNA SURFISTINHA, O FILME

A realidade distorcida, ou a ficção do prazer?
Ontem vi o filme Bruna surfistinha. Fiquei animado quando, depois da minha sexta aula, numa escola pública de ensino médio do Pará, em casa, liguei a TV e percebi que num dos canais a cabo estava iniciando essa trama dirigida por Marcus Baldini. A razão do meu interesse não era a mesma de jovens púberes, mas decorria exatamente da percepção da influência desse filme no espírito de algumas jovens. No Pará, com frequência, meninas abandonam a casa paterna para se aventurar no "mundo" e, ouvindo uma conversa entre alunas da escola em que trabalho, percebi que o filme fazia parecer a estas meninas que o "mundo" não era um perigo tão sério como queriam seus pais que elas acreditassem. Havia mesmo um certo ar de admiração extasiada ante as aventuras da Bruna Surfistinha. Não parecia lhes incomodar os detalhes morais, de qualquer julgamento social, mas a coragem da aventura a que se submeteu a personagem, aventura que, a final de contas, como avaliavam, não pareceu ter sido tão mal, considerando a vida sem sal a que estava condenada a Raquel. 

Sentei e vi o filme. Deborah Secco, modelo físico de mulher para muitos homens, representa uma personagem, Raquel, menina classe média paulista. Entre o tédio de uma família sem muito diálogo e as sacanagens dos colegas de escola, ela resolve abandonar a casa paterna e virar garota de programa. Tudo muito fácil. Tudo muito simples. Sinceramente, não sei porque classificaram o filme como drama. Não há drama. Penso que o filme podia até ser classificado como comédia.

O modelo de prostituta, limpa, perfumada, bela e estilosa.
Bem diferente das matronas que envelhessem nas
esquisas das grandes cidades. 
Eu sei que o filme procura reproduzir a vida real de uma pessoa, a Raquel Pacheco. Mas, como sou historiador, acredito que a memória sempre procura expurgar aqueles fatos mais asquerosos cuja lembrança, mesmo quando na íntima solidão, nos constrange. Assim, o que ficou foi o lado mais doce da vida de uma mulher de programa. A carreira meteórica da Bruna Surfistinha é uma rara excessão num país de preconceitos como o nosso. Faltou à trama a super-exploração dos cafetões, a extorsão da polícia, as agressões dos velhos bêbados e impotentes. Ficou a impressão que ser garota de programa é como ir a um baile de longa duração.

Isso me preocupa. Já morei nas proximidades do Dergo, em Goiânia. Tenho bastante leitura de estudos sobre a prostituição no Brasil. A prostituição, no Brasil e em qualquer lugar, não é uma festinha sem hora pra acabar.  Conheço muitos olhares tristes de prostitutas velhas, cansadas e usadas que se sentem como uma roupa fora de moda. Bebem, fumam e vêm o dia passar, como tudo o mais que ainda lhes resta. Não é nada poético, perfumado, ou belo quando a mulher tem que deixar-se invadir por um corpo julgado por ela asqueroso. A maioria esmagadora das mulheres de programa tem uma vida lastimável. O preconceito que recai sobre o seu cotidiano é tão notório que a própria profissionalização da prática envolve uma das maiores celeumas da nossa sociedade.

Então, se fosse possível deixar à parte natureza capital da representação cinematográfica em questão, penso que poderia ser muito útil se o filme tivesse dado algum espaço para a reprodução da realidade mais trágica da prostituição.