quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

PIRAQUÊ-TO: O PRESENTE NO PASSADO.

Vista aérea de Piraquê. google eart.
Estive em Piraquê-TO na quinta-feira que antecedeu ao Natal. Era um dia frio, com uma chuvinha fina e um ventinho triste. Estava de passagem e fiquei por lá pouco tempo. Nesse pouco tempo ouvi por duas vezes, anunciado num carro de som, um convite-convocação mais ou menos nos seguintes termos "O senhor governador Siqueira Campos através do seu representante local João Goiano convida todas as crianças, e seus pais, para... ", não consigo recordar se era "confraternização" ou "distribuição de brinquedos", acho que o último, porque confraternização, dada a clientela, pode parecer impráticavel, se considerarmos os objetivos do convite-convocação.  De qualquer modo isso me repoz no passado, numa enxurrada de lembranças mais forte que a força das águas do Lago Grande quando transborda. João Goiano é a alcunha do último herdeiro do coronelismo em Piraquê, filho do maior coronel e, diga-se de passagem, criminoso da região. Meus pais, avós, vizinhos, conhecidos e eu mesmo, fomos vítimas da família Batista; que mandava e desmandava no Piraqué, como a gente chamava, e que cuja herança o João Goiano é o portador.


A beleza constrastando com o sofrimento.
 Esse texto é um reencontro com o meu passado. Acho que por isso escrevo com uma certa revolta, porque  falar desse assunto é me por no divã, de forma pública, para rever um tempo de dor e sofrimento que a memória, em vão, insiste em apagar. Não apaga, mas, como acontece na maioria dos casos, filtra e só deixa vir à tona a lembrança do que foi bom. A lembrança das mangueiras, dos pássaros, dos banhos na fonte, do Piraquê, na casa da Mamãe do Goiás (como chamávamos minha avó materna). Mas, ouvindo aquele anúncio, naquela manhã chuvosa, a lembrança do que foi ruim irrompeu porque agora adulto, e tendo estudado sobre o contexto histórico da minha própria região, tenho uma leitura própria para a escravidão em que vivíamos e sei que, no passado, o sistema funcionava com esses mesmos mecanismos do presente, ou seja, ao mesmo tempo em que o Zeca Batista era o grande explorador, era ele também que distribuía leite na vila toda, foi através dele que chegou a energia elétrica, era ele a autoridade para quase todos os conflitos. Ele, Zeca Batista, era a medida de todas as coisas em Piraquê.

Eu não tive infância. desde que pude com o peso de uma foice e consegui movimentá-la, roçei os pastos do Zeca Batista. Trabalhavam comigo, além do meu padrasto, meu irmão, mais velho que eu um ano (acho começamos trabalhar por volta de uns 7 e 8 anos respectivamente), meu tio Roberto e o Emivaldo, que pela convivência e proximidade de idade, embora fosse tio Emivaldo, chamavámos só de Emi. Muito raramente meu padrasto contratava um peão que vivia quase que como um membro da família. Sei que meus tios também não tiveram infância. Trabalhávamos em lugares pantanosos plantando capim ou roçando o pasto e não havia hora certa para iniciar ou para terminar a faína diária. Não havia compensação nesse trabalho para nós, que éramos crianças, tão pouco para nossos país, ou para o peão, que por ventura estivesse em nossa companhia, os adultos.

Em alguns fins de semana, acho que a intervalos quinzenais, meu padrasto ia à cantina aonde comprava farinha, sal, açucar, café, arroz e feijão e, uma vez ou outra, carne seca. Além do alimento, ele precisava comprar foice, facão, esmeril e lima. A foice e o facão era para o serviço, cada criança-trabalhador precisava de uma foice; o esmeril e a lima era para amolar a foice e o facão. Tudo era tão caro, comparado ao valor da mão-de-obra que empregávamos, que os adultos acabavam sempre devendo muito ao patrão. Ao meu entendimento infantil, dívida do meu padrasto com o Zeca Batista parecia maior que a dívida que o rádio dizia que o Brasil tinha com o exterior. Meu padrasto, em troca de uma comida minguada e dos instrumentos de trabalho, estava sempre devendo. Nunca trabalhamos por dinheiro. Nunca houve lucro nesse trabalho. Acho que nasci escravo daquele sistema.

Mas nós, crianças e adultos, achávamos que isso era normal. Era a década de 1980 e essa era a realidade da região. Como considerar senhor de escravo um homem tão bom, que distribuia leite de graça às crianças? Como considerar mau o homem que mantinha "o motor de energia" funcionando, mesmo que fosse só de 18hs às 22hs? E as histórias de crime popularizadas? De peões que jamais receberam o seu "acerto"? Dos desaparecidos? E o caso da execução do seu Martins?

Entnedi essa contradição mais tarde, quando iniciei minha graduação em História. O livro de Victor Nunes Leal, "Coronelismo, enxada e voto" explica, inteligível para o mais leigo no assunto, o que é o coronelismo. O jornalista Ricardo Kotscho também escreveu um livro, "O massacre dos posseiros: conflitos de terra no Araguaia-Tocantins" em que cita o senhor José Batista Nepomuceno, o Zeca Batista, como um dos grileiros de terra na região, onde hoje é o Piraquê, e explica como ele ficou rico, beneficiado pelo governo militar em troca da delação, falsa ou verdadeira, de pessoas envolvidas com os guerrilheiros do Araguaia. Se ele entregou ou não pessoas para os militares não sei. Mas não tenho dúvida de que ele era, naquele período, o "representante local" do governo, que era militar. E sei que foi na década de 1970 que ele se tornou o poderoso chefão na região.

A política coronelista era essa, de dar o leite pela manhã e o chicote o dia inteiro. Dizem os fatalistas que a jusitça de Deus tarda mas não falha. A justiça do homem falhou, porque o Zeca Batista nunca foi às barras de um tribunal, embora fosse temido por suas "malvadezas". Mas hoje, justiça de Deus ou não, ele já não tem força econômica, ou política, para ofender ninguém. Está na miséria. Em função de algumas aventuras criminosas de um dos filhos, ele não tem prestígio nem mesmo para subir ao palanque do filho que herdar-lhe o bastão do mal.

Houve um tempo em que botinas comprava voto.
E houve um tempo em que leite era suficiente.
E agora? Brinquedo?
E o senhor João Goiano segue querendo impor ao presente o que houve de pior no passado. Eu não chamo de compra de voto antecipada distribuir brinquedos às crianças carentes de Piraquê (que a bem da verdade carentes são quase todas), não, não é compra de votos. É o que eles sempre souberam fazer, ou seja, em troca de migalhas, como leite ou brinquedos, tornar todo o povo servos da sua vontade. Isso é uma herança coronelista. O que conta na nova fórmula coronelista não é a história do indivíduo, que se propõe representar o povo, mas aquilo que ele conseguiu angariar com os supostos benefícios com que presenteou o povo que, em troca, deve retribuir concedendo-lhe o poder através do voto. Parece brincadeira de criança: brinquedo por voto.

É incrível como o pensamento é mais rápido que a palavra e a escrita. Tudo isso pensei num lance de poucos segundos, enquanto esperava minha prima, que devia seguir comigo para Goiânia. Agora estou transcrevendo essa reminiscência e sei que ainda estou silenciando muito do que poderia ser dito. Externar, o que estou escrevendo, no entanto, é quase como um grito de protesto contra essa volta ao passado, porque sei, pela minha pele exposta ao sol, pelo meu corpo doloridos nos pastos, que o passado não foi nada bom.


Bibliografia:


LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 4ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
KOTSCHO, Ricardo. O massacre dos posseiros: conflitos de terra no Araguaia-Tocantins. 2a. ed. São Paulo: Brasiliense, 1982.