sexta-feira, 10 de agosto de 2012

APRENDENDO COM OS ÍNDIOS KRAHÔS

Silvaline e indígenas e história e re-valorização cultural
Ainda existem as comunidades que insistem em preservar seus costumes, como os índios Krahôs[1] no município de Itacajá, Tocantins. Na permanência de oito dias entre eles, pude observar detalhes dessa resistência que eles mantêm mesmo já convivendo com o homem branco.

Vivem de forma ordenada em 20 aldeias do território Krahô, numa área de 302 mil hectares no nordeste do Tocantins. Sobrevivem da plantação de mandioca, milho, banana; alguns criam porcos, galinhas e ainda utilizam a caça para completar a alimentação. Contam também com a ajuda da FUNAI e do governo com as aposentadorias. Mas o destaque do trabalho dos krahôs está no artesanato: eles produzem cestas, bolsas, colares, brincos, pulseiras e outros. Para isso usam palhas de coqueiro, sementes variadas do cerrado. Confeccionam peças raríssimas com muita habilidade.
Nas escolas aprendem o português e o krahô que é uma língua muito complexa e diversificada. A comunidade infantil é enorme, devido à sua cultura ter como riqueza as crianças para a preservação da tribo.
Cada aldeia tem um cacique que conduz as decisões sempre resolvidas coletivamente e este tem o olhar atento no sentido de preservação dos costumes. Até o horário da televisão é controlado, ele me explica que as crianças não podem se envolver muito com a TV e esquecer os modos indígenas.

Pela manhã eles se reúnem em círculo para discutir o que vai ser feito no dia e nessa discussão entram os sonhos da noite anterior, que pode ser uma previsão importante. Com muita calma decidem o que cada qual vai realizar naquele dia. 
As vozes krahôs se confundem: Impej (bom, ótimo, bacana), Wamaramõ (até mais, vou me embora) ... No meio do bate papo, muito sorriso, a índia Krãmpej levanta, vai logo perto abre as pernas, a urina adentra a terra, sem cerimônia ela segue altiva, dona do seu mundo de pequena extensão e tão grande em qualidade!
As crianças, os jovens, os velhos sorriem muito, são felizes, livres; nada é proibido. No rio todos nus nadam, gritam e sorriem. A água é sagrada, não podem contaminá-la.
O índio Xorxor viu um brinquedo na cidade e o reproduziu em madeira. O filho, o neto, os adultos todos brincam com a novidade, o indiozinho o empurra ensaiando os primeiros passos naquela espécie de triciclo com rodas de pau. Incrível como eles descobrem nas pequenas coisas grandes vivências.
Na hora da foto Xorxor tira o chapéu, sorrindo escancaradamente, peço-lhe para ajeitar o cabelo, mas ele assanha-os mais ainda e diz:
-Deixa assim, eu sou homem do mato!
Hora de falar sério, o velho índio junta os pés, todos se calam e de cabeça baixa o ouvem. Fala do seu sentimento com voz pausada, dos sonhos voando nos cabelos brancos. Os olhinhos apertados brilham, ele passa às gerações futuras como ser sempre índio krahô. O índio mais novo sabe onde estão os nós, é preciso desatá-los um a um, diz ele e eloqüente dita os passos sob os olhares atentos, nada se perde. 
A riqueza maior do índio krahô são os filhos, eles garantem a perpetuação da nação krahô e assim as crianças são tão importantes quanto os velhos, todos participam das brincadeiras, o respeito pelo outro se faz em tudo. 
Na reunião da manhã a esposa do cacique não pode comparecer, este ouve tudo atentamente, opina e se vai. 

No dia seguinte demora a aparecer, lhe pergunto o que aconteceu, ele calmamente diz:

- Fui durmi muito tarde, a lua já alta...

Insisto:

- Mesmo, perdeu o sono?

Ele traga o cigarro e com voz firme responde:

- Não, foi purquê minha muié num tava na runiao e ai tive que contá pra ela tudo cunversa lá, ela gosta saber tudo que fala todo mundo...

A seriedade na convivência entre eles se vê na voz firme do cacique, é na importância dos detalhes que deixam transparecer esse respeito.

Um índio tem a esposa doente, leucemia. Sofre com ela, tem os olhos tristes, pede aos deuses para curá-la e a trata com um carinho especial como se fosse uma criança...

A índia Pokwýj amamenta o filho, o leite é farto, os bebês passam o dia dependurados nas mães. As crianças não recebem ordens, apenas pedidos. Quando questionada sobre o castigo dos filhos, a índia diz séria:

- Foi papã (Deus) que deu, não pode maltratar a criatura que papã deu, saiu da barriga, eu não espanca a criatura que papã dá, eu cuida dele!

Fomos pescar, eu,Xorxor e Abílio. Sol quente, poucos peixes, só eu conseguia fisgar algum pequeno de vez em quando e exibia para os dois que me olhavam desconfiados de longe.

Daí alguns minutos Xorxor senta bem perto de mim calado e continua pescando. Ouço algo se debatendo dentro do mocó dele, curiosa pergunto:

- O que está mexendo ai?

Ele deita de tanto rir e depois exibe o peixe grande que havia pegado, assim mostrando vantagem em sua pescaria.

Dia de festa, o Kã está lotado de índios, todos juntos sempre em círculo iluminados pela lua que nasce. Começa o ritual: um índio alto, cabelos longos, semi nu sacode o corpo marchando pra lá e pra cá, a voz forte canta na língua krahô um som que enche a aldeia, é um clamor aos céus. Outro velho índio faz um chamado cantado, sua voz é marcante, repercute em toda a aldeia e outros vão se juntando ao círculo. Vozes femininas fazem segunda voz e os sons adentram pela noite, um espetáculo se faz sob olhares e ouvidos atentos...

Trouxe comigo o olhar apaixonado do índio pela vida, a firmeza na voz buscando ser feliz na íntegra. A continuidade da etnia se faz no olhar que vê a beleza interior, na escolha do macho que vê a fêmea na grandeza dos seios prometendo mais leite para amamentar os filhos, enchendo a aldeia do mesmo sangue...

A jovem índia olha os músculos do moço, a força para plantar a roça e não seus cabelos negros que brilham seduzindo ao sol; no olhar criança ela imagina a perpetuação de sua raça...

O suspiro do índio, o olhar desconfiado da índia... Todos buscam o sonho, querem preservar a memória, numa vida livre, sem regras, sem horários,nas suas terras e águas sagradas.

Não há pressa, há uma harmonia ameaçada pelos costumes civilizados que invadem a aldeia diante do olhar sereno e forte do cacique impondo a conservação da cultura de seu povo.

[1] Fonte: SINVALINE. Aprendendo com os índios Krahô. Aldeia Krahô:  Nov/ 2006. In: www.overmundo.com.br/overblog/aprendendo-com-os-indios-krahos