domingo, 5 de maio de 2013

DE QUEM É A GREVE NA UEG


Greve de alunos não é apenas uma falácia jornalística.
Conheci a UEG em 2004, quando ingressei como aluno no curso de História da Unidade de Uruaçu. Da minha parte, vindo de um curso de filosofia de excelente qualidade, embora na clausura de um seminário católico, havia todo aquele ímpeto do recém ingresso na Universidade. A realidade, no entanto, contradita terrivelmente com minhas expectativas. Hão de saber os colegas, e os leitores do meu blog -www.amigodahistoria.blogspot.com - que apaixonado pela leitura, enquanto egresso de um curso de filosofia, o espaço da universidade não podia ser outro senão do debate, da criação, da reinvenção, enfim daquilo que se pressupõe seja a universidade. Mas, ainda no primeiro ano por muitas vezes sustentei a tese, em alto e bom som, que a UEG não era uma universidade.

Naquele mesmo ano, 2004, contra o parecer do Conselho Universitário e de toda a máquina da UEG, por força de uma ação judicial, consegui frequentar, como aluno regular, outra licenciatura na UEG, pedagogia parcelada em Niquelândia. E lá foi que vi, aproximadamente, as dimensões do câncer encrustado na UEG, e às vezes se confundindo com ela. 

Sim, se trata de um câncer. E como os colegas, e os leitores do blog, sabem o câncer é uma doença crônica. Pois bem, desde 2004 percebo algumas alterações nesse corpo doente, mas a visibilidade da permanência do mal é latente. Problemas dramáticos constituem os menores desafios à realidade da UEG. Nesse sentido, a biblioteca é uma piada, a internet tem velocidade similar à antiga internet discada mas estes ainda são probleminhas se considerados com danos estruturais.

Dentre os danos estruturais de maior monta quero eleger dois. A situação dos contratos temporários - que na verdade são mais permanentes que os servidores efetivos, já que sequer estão submetidos a qualquer tipo de avaliação - e a questão da pesquisa e da extensão na UEG.

Ainda na condição de discente percebi que o contrato temporário é uma desgraça para a UEG. Antes da ira, leiam o meu argumento por inteiro. Pois bem, é muito recente as seleções simplificada para contrato temporário na UEG. Antes disso o principal critério era exatamente a incompetência para ser professor. Sim, se entendermos o compadrio como um mal, e a história mostra isso muito bem, então devemos deduzir a incompatibilidade desse cargo emanada dessa relação. No Brasil, com é sabido, muito raramente alguém é indicado para qualquer cargo público em função de sua competência. O ingresso era errado. A perpetuação desse contrato, mais errada ainda. 

Existem muitos professores contratados que são bons professores, principalmente os contratados mais recentemente. No que diz respeito aos mais antigos, a formação nunca foi critério. E se a formação, e consequentemente a produção acadêmica, não era um critério, então, qualquer outro critério deixa de ter validade, considerando a natureza da função e o espaço de exercício dessa função.

Mas, esses servidores também são vítimas. Um Estado marconista não sobreviveria sem eles. É, portanto, um jogo de mão dupla. Muita gente se sente bem na posição em que está e prefere mesmo que não se faça concurso público. No que diz respeito a alguns setores e a algumas unidades, a UEG tem sido cabide de emprego. Em Anápolis mesmo, um batalhão de pessoas para quê? Servidores concursados representaria uma estabilidade perigosa para o Estado, de modo que a manutenção de um quadro preponderante de temporários alimenta o equilíbrio fundado na mistura de incompetência com decadência.

Lamento muito a generalização. Não é proposital. Mas quando se fala em servidores temporários, é muito difícil separar o joio do trigo. Talvez seja por isso que quase ninguém se arrisca a tocar nessa questão. Mas eu estou disposto a falar. E aí, talvez para desviar um pouco das pedras, faço uma distinção clara: uma coisa é a realidade de Uruaçu, e de muitas Unidades que também têm servidores temporários, outra coisa é a realidade de Niquelândia, tornada Unidade sem um único servidor concursado ou de Goianésia que no último concurso se negou a indicar vagas para o certame. É contra esse tipo de situação que me rebelo.

Quanto à pesquisa e extensão existem duas questões fundamentais que gostaria de sintetizar num caso específico. A UEG lançou uma peça publicitária recentemente - que eles chamam de jornal da UEG, mas que é uma peça para a promoção da imagem do reitor até as próximas eleições - bom, nós, da Unidade de Uruaçu, gostaríamos de ter recursos para a produção científica. A nossa Unidade tem insistido na possibilidade de uma revista, mas isso não é importante.

Somente esse quadro exposto torna inteligível uma greve de alunos, quando deveria ser de servidores. E essa vergonha vejo desde 2004. O apoio dos alunos, como disse numa assembleia da minha Unidade, é imprescindível, mas a greve só será deles quando eles forem servidores, seja em que área for. O que justifica esses recortes da mídia? O que justifica essa troca de papéis? A covardia.

Falta ao quadro da UEG, contratados e efetivos coragem, personalidade, vergonha e, acima de tudo, aquela ética de que fala Paulo Freire. Os alunos funcionam como escudo porque ninguém quer se expor. Isso sim é vexatório. E isso ocorre desde sempre.

O que eu penso? Sim, defendo a greve. Mas, apoiada pelos alunos, a greve deve ser dos servidores da UEG, de todos eles.