terça-feira, 28 de outubro de 2008

O outro como referência: uma leitura de "A memória coletiva" de Maurice Halbwachs




HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro Editora, 2006.



Resumo[1]: Inspirado na obra “A memória coletiva” de Maurice Halbwachs, o presente artigo constitui-se de uma análise da relação entre contextos sociais, memória e construção histórica tendo por base teórica a referida obra. O contexto social deve ser entendido como o espaço-tempo onde se processam as ações coletivas objeto da memória que sob risco de extinção tem na história seu recurso de fixação. “Um homem que se lembra sozinho do que os outros não se lembram é como alguém que enxerga o que os outros não vêem”, essa idéia de Halbwachs, por si, ilustra o que de mais relevante pode ser evidenciado em sua obra, o outro como referência do eu.


Desenvolvimento

Um dos pontos fundamentais da leitura de Halbwachs é a possibilidade de análise do papel social da memória. Nesse sentido, A memória coletiva (2006) transporta a cotidianidade das vivências para o campo da história dos indivíduos que se reconhecem pelo passado comum numa recordação que é impossível “quando não se toma como ponto de referência os contextos sociais reais que servem de baliza à essa reconstrução”. (p. 8). Fica, portanto, condicionada o sentido da memória a um contexto e à interação com os indivíduos que partilham da ação objeto da memória.



Não se pode pretender dizer, porém, que a memória reproduza, como num filme, tudo o que aconteceu, de modo que cada um possa relembrar tal como realmente sucederam os fatos. A memória, de acordo com a significação atribuída pelo indíviduo ao evento objeto da rememoração, comporta variação. Isso se explica não pelo fato em si, mas pelo sentido atribuído a este pelo grupo. Uma turma de alunos, detalha Halbwachs, pode lembrar mais de um professor do que o professor de um determinado aluno. Isso porque para o professor as turmas de alunos representavam grupos de convivência efêmera sendo, portanto, vagas as relações sociais aí estabelecidas.



A importância dada à memória coletiva não anula a importância das lembranças individuais. O que Halbwachs nos faz perceber é que embora o fato, isoladamente, encerre a marca da individualidade, ele somente é rememorizado pela intermediação do coletivo. A memória individual é, portanto, um ponto de vista sobre a memória coletiva porque o indivíduo sempre está impregnado do coletivo e a as lembranças “mesmo as mais pessoais, sempre se explicam pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos ambientes coletivos.” (p. 69).



Dizer que a memória, intermediada[2] pelo outro, dá conta da reconstrução dos fatos coletivos, invoca uma discussão sobre que papel caberia à história. Halbwachs faz perceber que a memória individual se sustenta no coletivo –que fornece substancialidade para as suas lembranças –à guisa de exemplo, tenho lembranças que poderiam constituir minha biografia, estas lembranças me dão conta daquilo que sou, brasileiro, casado, professor, etc.; mas o sentido integral de brasilidade, de matrimônio, ou do exercício do magistério isso eu só poderia recuperar tendo a coletividade como referência. Quando essa coletividade não tem mais suporte para sustentar a memória a necessidade de escrever a história se torna imperativa. Nas palavras de Halbwachs:


A necessidade de escrever a história de um período, de uma sociedade e até mesmo de uma pessoa só desperta quando elas já estão bastante distantes no passado para que ainda se tenha por muito tempo a chance de encontrar em volta diversas testemunhas que conservam alguma lembrança. (p. 101).



O sentido atribuído à escrita da história foge à compreensão da história do presente, haja visto, que na interpretação de Halbwachs a história só tem sentido pelo distanciamento entre fatos e indivíduos quando, na verdade, na perspectiva da história do presente, a história pode ser escrita –ou pelos menos subsidiada, por aqueles que viveram os fatos objetos da escrita. A objetividade do historiador apresenta-se como ponto crítico uma vez que para ele “nada está subordinado a nada, qualquer fato é tão interessante quanto qualquer outro e tanto quanto qualquer outro merece ser posto em destaque e transcrito”. (p. 106) A memória coletiva não pode ser revestida dessa imparcialidade porque é exatamente pela relação afetiva, ou de significação com os fatos-contextos que se deve entender a diversidade das memórias coletivas e o sentido que lhes é atribuído pelos indivíduos. Contrariamente a isso, o historiador, que acredita ser imparcial, “não leva em conta o pontos de vista de nenhum dos grupos reais e vivos que existem” (ibidem) para esses grupos, contudo, os acontecimentos, lugares e períodos “estão longe de apresentar a mesma importância”. (ibidem). A estabilidade do grupo, aquilo que lhe é comum dentro de um determinado tempo constitui perspectiva para que o grupo, que se vê interiormente, tome consciência de sua identidade. A história, por outro lado, desinteressa-se das permanências para fixar-se nas mudanças. Estas dissonâncias não implicam negação da história, ela é fundamental uma vez que possibilita a continuidade do elo do grupo com aquela parcela que a geração presente não alcança mais.



Uma outra observação interessante diz respeito ao tempo. Também essa noção, que sabemos é abstrata, só tem sentido quando dentro de um contexto social afinal, a título de exemplo, que sentido teria a noção de tempo a alguém que tivesse uma vida social? Por outro lado, quanto à memória, as lembranças estão sempre relacionadas a um contexto que envolve dados temporais. Os tempos, nesse sentido são diversos, mesmo porque envolvem noções convencionadas e, dentro dessa convenção, não é difícil de entender que a divisão social do trabalho revestiu de um novo sentido a forma de organizar e viver o tempo, de forma mais direta na sociedade ocidental. Essa compreensão do tempo não importa em anulação das individualidades, o tempo extensivo ao coletivo social é puramente artificial e somente enquanto projeção individual é que ele tem sentido concreto, melhor evidenciam tal afirmação as idéias de que pode-se afirmar que um fato aconteceu quando o indivíduo era pequeno, antes da guerra, depois da guerra, pela manhã, à tarde, etc. mas sempre tendo um dado da sua experiência espaço-temporal como referência. Também dentro dessa compreensão de tempo, a história novamente é abordada por Halbwachs como recuperação e seqüência de uma memória que, pelo distanciamento temporal daqueles que viveram a experiência, corre o risco de ser esquecida, assim:


A memória coletiva retrocede no passado até certo limite, mais ou menos longínquo conforme pertença a esse ou aquele grupo. Além disso, ela já não atinge diretamente os acontecimentos e as pessoas. Ora, é precisamente o que está além desse limite que prende a atenção da história. (p. 132).


Por esse distanciamento entre o fato e a narrativa histórica fica evidente a clara diferença entre história e memória coletiva que constitui um dos pontos básicos da obra. A história narra fatos despojados de subjetividade, inclusive sem poder contar com o jogo das opiniões e valores que circunstanciaram tais fatos o mesmo não podendo suceder com a memória coletiva que, enquanto memória do grupo, é matéria da identidade desse grupo. Na perspectiva da história o tempo remete à noção cronológica, dissociada das experiências e fundada no suceder dos fatos em si; no horizonte da memória coletiva, há uma multiplicidade de tempos como há uma multiplicidade de grupos sociais, cada um com a duração de seu tempo, ou com seu próprio tempo, uma vez que o tempo, neste caso, é apenas um dado da consciência coletiva. Os tempos são, relativo à memória coletiva, mais ou menos vastos, conforme, de acordo com as possibilidades de retrocedimento da memória.



Sobre a relação entre espaço e memória coletiva Halbwachs apresenta a noção de espaço para além da sua compreensão geográfica. O próprio espaço é lugar de produção da memória pela simbologia que lhe é impregnado. A esse respeito, a título de exemplo, uma cruz fixada à beira da estrada nos lembra a cena de uma tragédia. Para o autor nosso ambiente material traz ao mesmo tempo a nossa marca e a dos outros, isso porque a cruz à beira da estrada não lembra uma tragédia apenas para um indivíduo, ela é, antes de tudo, uma referência coletiva. O espaço não é apenas lugar da memória enquanto experiência do passado, o espaço expressa a própria dinâmica do grupo que muda, mudando também o ambiente partilhado. A essa idéia pode ser reforçada se acrescentarmos, como argumento, que quando o grupo sofre uma alteração, como uma morte, casamento, fica rico ou fica pobre, também no ambiente se notará essa variação.



Quando o objeto de análise espacial é o ambiente mais familiar, fica claro que esse espaço exterioriza o interior do grupo. Assim, a estabilidade da habitação, por exemplo, pode evidenciar a imagem pacificante do grupo. O lugar, como um outro que interage comigo, possibilita lembrar todo um tempo que se desenha e toma vida na sua interação como espaço de uma experiência vivida e o eu-indivíduo agente dessa experiência. Halbwachs defende que o homem estabelece uma relação com o espaço que envolve a própria formulação de seus pensamentos. Há que se considerar, enfim, que a proximidade espacial constitui um dos elos que liga o grupo. Antevendo argumentos contra essa idéia, o autor justifica que, no caso da condição jurídica, natural da sociedade feudal, é o burgo espaço do camponês, embora seu regime pareça justificar-se pelas regras de direitos e obrigações a que estava submetido. Não obstante, creio, nesse ponto, ser razoável especificar que não é privilégio privado do espaço geográfico, o elo entre a pessoa e o grupo. Se analisarmos o movimento revolucionário francês, ou os movimentos sociais brasileiros de contestação da ditadura militar de 1964, observaremos que não é o espaço o elo, é a causa, paradoxalmente, contudo, os motivadores desse grupo são questões puramente nacionais, ou seja, determinada espacialmente. Isso posto, resta aquiescermos com Halbwachs quando diz que “não há memória coletiva que não aconteça em um contexto espacial”.


Aos músicos poucas palavras minhas, de Halbwachs, um capítulo. Esse capítulo é particularmente interessante aplicado à diversidade do contexto sócio-histórico brasileiro. O autor discorre sobre duas formas de lembrar a música, uma pelo músico, “que sabe ler música” e outra pelo ouvinte comum. É claro que o referente será a experiência relacionada ao som, para o ouvinte, e à produção para o músico. Para o músico a música tem sentido relacionada ao conjunto de músicos e maestros que a inventaram. Aplicado ao caso brasileiro, com interpretação pessoal, não de Halbwachs, o som executado pelos africanos trazidos à força para o Brasil certamente tinha o poder de rememorar parte da vida que naquele momento lhes era negada. Portanto, a música africana, ao mesmo tempo que é parte de uma memória coletiva, é também recurso de reconhecimento identitário.



Esse efeito da música não age apenas naqueles que a executam. No Brasil e em alguns países das Américas têm ganhado força um movimento que tem na música sua força de expressão. Essa expressão ganha espaço na sociedade de consumo a partir da sua aceitação por uma parcela considerável da sociedade. Portanto, o reggae, o samba, o funk, dentre outros estilos, representam uma afirmação de identidade e, ao mesmo tempo, instrumentos de luta de classes que como movimento prévio de luta, usaram a música como memória e identidade.


Conclusão

É bastante profícuo o estudo de “memória coletiva”. A relação que o autor estabelece entre a memória individual e a memória coletiva serve de base para o entendimento que a memória é um fenômeno humano que, enquanto tal, embora possa residir interiormente no indivíduo, ganha evasão a partir da interação do outro. Essa relação intermediada faz da memória, uma memória coletiva, porque embora particular só se efetiva e tem sentido com o outro torna-se uma das referências para o entendimento da identidade a partir desses pontos comuns.



Enquanto pressuposto de identidade a memória tem uma relação de completude com a história, ou de inteireza, uma vez que a história aparece como recurso de preservação da memória quando, pelo distanciamento entre fato e pessoas não possibilita mais as lembranças dos fatos. Nessa perspectiva também a história, não fosse pelo seu sentido universalista, deveria estar integrada à questão da identidade, como está para muitos historiadores. Contudo, mais preocupado em estudar a memória que a história e sua relação com os grupos –na vertente regional ou micro-história, por exemplo –Halbwachs faz evidencia que a história não pode confundir-se com a memória coletiva porque, diferente desta, não comporta opiniões ou subjetividade, que é característica da memória cuja lembrança dos fatos envolve uma ligação identitária que, por isso, é subjetiva.



Espaço e tempo, tratados nos capítulos 3 e 4, respectivamente, podem ser sintetizadas na compreensão de que os fatos ocorrem em um contexto espaço-temporal. Assim, tanto espaço quanto tempo têm lugar privilegiado na memória coletiva. O tempo, todavia, existe na sua multiplicidade, é convencionado apenas para comportar a organização do trabalho humano, mas nem sempre está integrado ao espaço da memória que, às vezes, comporta idéia temporais diferentes como infância, primavera, etc.



Com menor intensidade, o anexo final da obra trás uma reflexão sobre a memória coletiva entre os músicos, do que aproveitamos para refletir sobre a música enquanto memória e identidade entre os negros africanos trazidos aqui para o Brasil. É fato, e espera-se que tenha ficado claro, que a abordagem de Halbwachs insere-se num contexto que faz frente à tendência de individualização e fragmentação do indivíduo cada vez mais evidente na nossa sociedade. Apresentar esses elementos no seu aspecto coletivo possibilita situar o estudo da história na valorização do plural, inclusive das formas de expressão.


[1] Por Moisés Pereira da Silva, professor de história na rede estadual e municipal de Niquelândia-GO, licenciado em História e Pedagogia pela Universidade Estadual de Goiás – UEG, e especialista em História e cultura afro-brasileira pela FINOM.
[2] Intermediado, pela falta de termo melhor que defina o papel dos indivíduos como recurso de rememorização dos acontecimentos. Em outras palavras, utiliza-se o termo intermediação para explicar que entre o eu e a lembrança a uma presença fundamental exterior ao eu: o outro indivíduo que me faz lembrar o fato.