segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O CASO DA CADELA YORKSHIRE LANA - FORMOSA - GO

Recentemente, em Luziânia, alguns jovens foram mortos de forma misteriosa. Desvendado o mistério das mortes, soube-se que haviam sido vítimas de um maníaco. A família sofreu antes, e sofreu depois. A sociedade, no entanto, manteve-se alheia. As manifestações restringiram-se aos familiares dos desaparecidos, que desesperados, rogaram para que o poder público intervisse, de modo a esclarecer os fatos. E o que aconteceu? Prenderam o suposto autor, ele foi suicidou-se, ou foi morto, ninguém sabe. Mas, quem se importa se de fato ou ou não o tal maníaco? A sociedade pouco se interessou.

Mas, no mesmo Estado, na mesma região, desta feita em Formosa-GO, a agressão de uma mulher, ser humano, a uma cadela, animal, rendeu a comoção nacional. E a imprensa tem alardeado o fato. O fato tornou-se cotidiano da mídia sensacionalista, especialmente a Rede Record. E a playbozada, as patricinhas e aquelas madames sensibilizados estão à flor da pele com tamanha crueldade.

A agressora já foi ameaçada de morte e, nacionalmente, existe toda uma comoção. Sou contra maus-tratos a animais. Mas sou contra maus-tratos a pessoas. A mesma sociedade que se silencia diante das desgraças cotidianas que atingem crianças, adolescentes, velhos e toda a classe miserável desse país, se sente perturbada diante da agressão à tal cadelinha. Questionar tendenciosamente que se Camila Corrêa, a agressora, fez o que fez com a Lana, a cadelinha, então o que ela poderia fazer, em momentos de fúria, com a própria filha de  modo a induzir que ela poderia ter a mesma atitude com a criança equivale a pôr no mesmo nível a existência de uma cadela yorkshire terrier e uma criança, a filha da enfermeira Camila Corrêa. Isso é absurdo.

Sinceramente, acredito que essa sociedade que aí se manifesta padece de um mal histórico ligado à debilidade crítica, que tem caracterizado suas manifestações. O que conta não é o que acontece, a realidade como ela é, mas a alienação ante aquilo que deveria ser mais sagrado. Não teria sido Deus quem distinguiu homens de animais? Não estaria o ser humano acima dos animais? Execrar, violentamente, uma pessoa em nome de um animal é submeter uma existência humana a critérios desumanos. Não se trata de defender maus-tratos, mas de defender a dignidade humana que, no meu ponto de vista, está acima da dignidade de qualquer animal.  

A nossa sociedade tem subvertido muitos valores. Em nossas cidades, de modo especial nas regiões metropolitanas, existem milhares de crianças relegadas à marginalidade. Outras tantas, no seio de suas famílias, têm reduzidas suas chances de vida com dignidade porque o Estado, envolto em corrupção, não lhes oportuniza educação com qualidade. Maior ainda é o número da população brasileira padecendo às portas dos hospitais públicos porque o sistema de saúde brasileiro é decadente. Faltam equipamentos médicos, os médicos não cumprem seus plantões e, para quem é pobre, resta a mendicância por aquilo que lhes é mais sagrado, a vida, e vida com saúde.

Poxa, enquanto o mundo se despedaça em tantas mazelas, uma classe média medíocre, acompanhada de grupetos transloucados se perdem em devaneios por causa de uma cadela. Chegamos a um ponto tão crítico que alguns porra-loucos quiseram fazer revolução na USP pelo direito de fumar maconha no campus. Pessoal, vamos acordar, se vocês querem fazer a revolução, então procurem causas mais nobres. E as causas nobres existem. Acordem!