terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O DISCURSO RETRÓGRADO E A VITÓRIA DO NÃO

Esse Pará, no Sudeste, não existe mais.
Ha muito sei que um grupo de pessoas defendiam a divisão do Estado do Pará. Mas, a partir de 2009, quando passei a trabalhar no Sudeste do Estado passei a interessar-me mais vivamente pelo tema. Tive duas posições muito claras quanto ao assunto. Antes de chegar ao Pará, ainda com idílicas lembranças de um tempo da minha infância quando conheci, de passagem, um Pará regiões de florestas, no Sul, ainda preservadas, defendia o "não". O outro posicionamento, do "sim" para a divisão, foi sendo formado a partir da minha mudança domiciliar para a mesma região, em outro tempo, no tempre presente, em uma outra realidade, a realidade de um Pará explorado, desmatado, saqueado e que lhe falta apenas o progresso próprio das regiões desenvolvidas do país.

Quando defendia o "não" estava defendendo um suposto "estado de natureza" que imaginava existir e que queria preservar. Tinha muito claro que a divisão do Estado resultaria em progresso da região e progresso significa problemas ambientais, como desmatamento, represamento de rios e outros temas da mesma natureza. Pensava nas terras indígenas atravessadas pelo maquinário do homem branco e no aumento dos conflitos agrários e ficava convicto que dividir o Pará não seria bom para o Brasil, porque era preciso preservar esse canto verde para os pulmões da nacionalidade inteira.

O Sudeste paraense, de hoje, nasceu da grilagem e do fogo.
Vindo trabalhar e morar em Marabá, e viajando pela região, descobri que tinha um falsa idéia sobre o Pará. Não mais o Pará imaginado. O que prevalece aqui são os problemas ambientais. E aqui existe problema ambiental de todo tipo. As terras indígenas já foram devassadas. Os camponeses já foram mortos e marginalizados e os rios já foram poluídos e estão sendo represados. 

Então, percebi que ao Pará só faltava o progresso.

Mas fiz outra grande descoberta, essa mais cara de ser dita aqui: o povo paraense, quanto ao progresso, é retrogrado.

Dia 11/12 foram às urnas e, democraticamente disseram "não" à divisão. E qual foi o motivador? Isso só Deus sabe. Mas, simples mortal, conjecturo a partir de alguns discursos, bem vazios é verdade. Alguns justificaram a negação porque "queriam o Pará grande", outros porque se opunham ao projeto porque este representaria ideais alienígenas ao povo paraense que, nesses discursos, apareciam identificados geograficamente com o povo de regiões como Belém e Cametá. O que negavam, no entanto, era simplesmente a possibilidade de progresso.

Os defensores do "sim" alardeavam que o Estado só desenvolve a região de Belém. Mas, que desenvolvimento há na região de Belém. Belém é a maior carniça a céu aberto que tive a oportunidade de conhecer. Sei que é duro dizer isso porque muitos que admiram vão protestar ante tamanha sinceridade. Mas, vejamos, o Ver-o-peso é um dos principais cartões postais de Belém. Mas, o Ver-o-peso tem som, cheiro e sabor. Som da balburdia, cheiro de podridão e sabor de cerveja barata. E em Belém, o que não é podridão, marginalidade e gente honesta, no meio de tudo isso, querendo ganhar a vida? Talvez a Avenida Nazaré e algumas regiõezinhas do centro da cidade, mas bem do centro mesmo; porque se pender um pouco pras beiras, aí a coisa vai feder novamente.

Urubus, marca indelével do Ver-o-peso, e porque não dizer, de Belém.
A verdade seja dita, ao bom paraense, aquele de pele queimada, baixinho -quase sem pescoço - aquele de expressões como "égua muleque, tu é doido!", "égua mano!"; pra esse camarada, tendo um açaí com peixe e uma rede, pra que progresso? É desse povo que Stuart Hall fala quando, discutindo sobre identidades culturais na pós-modernidade, fala sobre grupos fechados, que voltam-se sobre si para preservar a sua identidade de grupo. Toda a campanha eleitoral, as discussões anteriores e o que virá agora nessa segunda fase, pós-eleição, gira em torno disso, da questão da identidade. O povo paraense, o paraense da gema, não nega o sujeito da região de Carajás, esse é um discurso falso; também não nega o sujeito de Tapajós. O que o paraense nega é o progresso porque o paraense se sente bem com a ausência do progresso.

Seria possível imaginar Belém sem urubus? E que progreso há em Belém? Hospitais super-lotados; ruas que viram mar sempre chove; ausência de saneamento; iluminação pública inexistente em grande parte da cidade; vias, onde existem, em péssimas condições de conservação, e muito mais poderia ser dito. E a região? Ananindeua, Marituba, Castanhal; indo um pouco mais para o interior, Igarapé-miri,  Cametá? O caos é generalizado! Falta quase tudo, mas não falta o jeito paraense de ser.