terça-feira, 8 de maio de 2012

PAULO FREIRE - PROFESSORA SIM, TIA NÃO: UMA LEITURA ATUAL.


Tive, em alguns momentos da minha vida acadêmica, e depois docente, a oportunidade de ler escritos de Paulo Freire. Penso que o conjunto da obra intelectual desse educador constitui leitura imprescindível a qualquer educador que trabalhe num contexto sócio-econômico e político similar ao brasileiro, o que faz a obra atual para além dos limites das fronteiras do nosso país. Pedagogia da autonomia é um clássico cujo título é síntese da obra. Mas, se pedagogia da autonomia é um clássico, professora sim, tia não é um manual de conhecimento necessário a todos aqueles que trabalham em escolas e pretendem significar a sua docência ultrapassando o sentido da servilidade e da estéril reprodução das desigualdades sociais, como se por ser um fato dado, essa realidade não seja carente de transformação.
Professora sim, tia não é uma insurgência contra o papel de tia que, segundo o autor, se pretendeu à identidade da professora. O não ser tia, contudo, não é desafeto. O afeto deve existir, mas não pode emanar de uma pretensa filiação, ou de qualquer relação paternalista.  Coerência e política são expressões recorrentes no texto porque são valores distintivos entre a professora, que assume posições políticas e é coerente, e a tia, que anima e acalenta, porque pensa o seu fazer como uma extensão das relações familiares.
A formação continuidade, um compromisso, e a ousadia como valor, são fundamentos caracterizadores da professora. Nas palavras de Freire (1997: 9):

O processo de ensinar, que implica o de educar e vice-versa, envolve a “paixão de conhecer” que nos insere numa busca prazerosa, ainda que nada fácil. Por isso é que uma das razões da necessidade da ousadia de quem se quer fazer professora, educadora, é a disposição pela briga justa, lúcida, em defesa de seus direitos como no sentido da criação das conceições para a alegria na escola, um dos sonhos de Snyders[1]

Muito própria à nossa realidade a exigência de que a professora assuma uma “briga justa” e “lúcida” em defesa de seus direitos. De fato, não dá pra esperar que uma tia lute por direitos. Fazer profissional tem preço, paternalismo não. Então, somente professoras podem lutar pela defesa da educação com qualidade, o que implica valorização de si.
Nesse sentido, tias não são as professoras chamadas de tias, ou as tias efetivamente. Tias e tios são professoras e professores que tornam o fazer docente um exercício profissional inferior, porque se deixam submeter, seja por falta de qualidade intelectual para lutar, seja por covardia frente às opressões e ameaças. Existem tias e tios em excesso no interior de nossas escolas, e essa é a razão de nossa educação encontrar-se no pé em que está.
Como esperar de uma pessoa que não luta por seus próprios interesses, que lute por alguma coisa que seja digna? Como esperar de uma pessoa que não defende condições melhores de trabalho e valorização da sua prática, que possa contribuir para que nossa educação seja melhor em qualquer sentido? Como esperar alguma coisa de alguém que não espera nada de si próprio? Como transformar o nosso sistema de ensino tendo de lidar com tantas tias e tios no interior das escolas?
Tornou-se comum a definição da educação como ponte entre a miséria e condições mais dignas de vida para a imensa massa de miseráveis do nosso país. Os discursos políticos não deixam dúvida de que também eles sabem do caminho das pedras. E todos sabem que a educação, mas não essa educação que temos, é a solução. Todos sabem. Mas ninguém, no universo político-administrativo, parece disposto a fazer alguma coisa no sentido de superação dos problemas. A sociedade, que entrega seus filhos à escola como se esta devesse substituir a família, tão pouco colabora para a superação do caos em que repousa o nosso sistema educacional.
Se nenhum sujeito externo –e nesse caso considero que os administradores públicos se portam como sujeitos externos –se interessa por colaborar com a solução dos problemas, é preciso apostar na transmutação das tias e tios em professoras e professores esperando daí o advento da revolução que torne a educação meio de emancipação política do nosso povo. É por isso que não me resta nenhuma dúvida que a leitura de professora sim, tia não deveria ser obrigatória em todos os cursos de licenciatura.


Bibliografia:

FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Editora Olho D`água, 1997. 


[1] GEORGES, Snyders. La Joie à L’école. Paris: Puf, 1986.