domingo, 2 de fevereiro de 2014

O GRUPO DE TRABALHO DO ARAGUAIA (GTA) E AS VÍTIMAS DA DITADURA NO CAMPO



O governo, em especial a Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, tem demonstrado interesse eloquente no sentido de garantir ao povo brasileiro um direito à memória e à verdade, tema aliás recorrente em simpósios, seminários e conferências dos mais importantes espaços universitários do Brasil hoje. Nesse sentido, paralelo às discussões são abertos, também, espaços à visitação, como o antigo prédio do DOI-CODI em São Paulo e multiplicam-se, especialmente em Xambioá, hoje Tocantins, as expedições de busca por restos mortais de ex-guerrilheiros do PC do B que foram executados pelo exército durante a Guerrilha do Araguaia.



Durante mais de 30 anos, familiares e sobreviventes da guerrilha tentam esclarecer os fatos ocorridos no Araguaia e cobram uma reparação do Estado. O movimento armado foi organizado em 1966, pelo PC do B (Partido Comunista do Brasil) na divisa entre Tocantins, Pará e Maranhão, região conhecida como Bico do Papagaio. Os guerrilheiros eram contrários ao regime militar e queriam instituir um estado independente na região.



Trabalho do GTA no Cemitério de Xambioá
Os participantes da guerrilha começaram a chegar no local no final de 1965, instalando-se como pequenos comerciantes. Em 1966, a estratégia era implantar o comunismo no campo e na cidade. Cerca de 80 homens e mulheres ocuparam uma grande área à margem esquerda do rio Araguaia.



Os guerrilheiros eram jovens, universitários, camponeses, engenheiros, geólogos e médicos, que foram combater a ditadura, defender a democracia e os direitos do povo. Em 1972, o núcleo foi descoberto pelo Exército e, em 1975, o movimento foi esmagado pelas Forças Armadas.

Soldados requerem às suas vítimas informações sobre as outras vítimas.
De acordo com a Secretaria Especial dos Direitos Humanos, até hoje não foi descoberto o número de mortes. Estima-se que 59 pessoas morreram durante o conflito e que os corpos estejam enterrados em cemitérios clandestinos da região.



Xambioá é uma cidade às margens do Rio Araguaia, numa região fronteiriça entre Tocantins, de um lado, e o Pará, do outro lado. As expedições concentraram-se nessa cidade porque existe uma série de registros em livros, documentos e relatos relativos à guerrilha que apontam Xambioá como o centro de coordenação das operações contra a guerrilha, local de detenção de presos, tortura e execuções.



O governo acredita que na área urbana da cidade existem dois espaços em que podem ser encontrados restos mortais, no cemitério municipal, que já existia à época, e nas proximidades do aeroporto, base dos militares à época. Nestes locais, além de outros guerrilheiros, podem ter sido enterrados os corpos de Walkíria Afonso Costa e Osvaldo Orlando da Costa, ambos mortos pela repressão militar.  



Em Xambioá, desde 2004, já foram realizadas quase 10 expedições em busca de ossadas dos guerrilheiros do Araguaia. Em 2010 foram encontradas, no cemitério de Xambioá, duas ossadas de guerrilheiros, Bergson Gusmão Faria e Maria Lúcia Petit.



A dificuldade de acesso às pistas levou o governo a, em 2010, criar um número especial, 0800 605 50 00, para atender informantes que possam oferecer pistas sobre prováveis locais em que se possam encontrar vestígios dos guerrilheiros. A verdade é que há uma dificuldade de aproximação do povo que tem uma memória ainda muito viva, embora traumática, da Guerrilha do Araguaia. Mas os intelectuais de gabinete, ao que tudo indica, ainda não souberem se aproximar disso. 


Em 2011 acompanhei, na distância que me foi permitida, o trabalho dos técnicos no cemitério de Xambioá. Para um morador local, o pessoal ali constitui uma lembrança viva da série de filmes “homens de preto”. Nem mesmo o calor e a alta humidade conseguem fazer os homens da Polícia Federal, do Instituto Médico Legal do DF e outros agentes do governo se desfazerem de suas roupagens diferenciadas. O ministro da Justiça e ministra dos direitos humanos estiveram na área em algumas ocasiões e aí o ritual foi maior ainda.



O povo de Xambioá, na verdade, é constantemente maculado pelas invasões ao descanso dos seus familiares profanados sem qualquer respeito. E a eles não é dada qualquer oportunidade de se fazerem ouvidos.



Sei, como todos sabem, em especial o povo sofrido de Xambioá, que também foi vítima da repressão, que os guerrilheiros mortos estão por toda parte. A maioria, cinzas espalhadas na Serra das Andorinhas.



A quem interessa reparar as marcas da Ditadura sobre os camponeses do Araguaia?
O que me incomoda, no entanto, é que aos camponeses atingidos pela Guerrilha do Araguaia, alguns mortos, outros torturados e outros tantos mutilados ninguém demonstra o menor interesse, nem mesmo as discussões acadêmicas. E estes estão lá, para todos verem, e ninguém deseja vê.



Vários envolvidos, aventureiros “da alta burguesia da cidade”, já tiveram seus parentes indenizados. E os camponeses, que até têm associação, estão à mercê. Contradição



Maior contradição ainda é o fato de que o governo investe milhões em expedições de escavação, quando o mais barato e lógico seria impor o poder do Estado sobre o poder dos militares hoje. Tornando o Brasil um país, de fato, republicano-democrático, abriria os arquivos militares e, por essa ação, se poderia saber melhor onde foram parar os corpos dos guerrilheiros.



É fato, no entanto, que existe ampla historiografia e biografias que justifique acreditarmos que não existem arquivos, até mesmo em função do caráter clandestino das operações. Mas, ter acesso à verdade, é não permitir segredos militares de um lado, e um Estado querendo saber a verdade do outro. Contradição.