domingo, 11 de maio de 2014

PIRAQUÊ-TO, A PREFEITURA COMO NEGÓCIO DE FAMÍLIA



Prefeitura de Piraquê, um negócio da família Nepomuceno.

A palavra nepotismo, como a maioria das palavras de nossa língua, é de origem latina. A palavra vem do latim NEPOS, que significa neto ou descendente. Nepotismo, portanto, é um termo utilizado para designar o favorecimento, no serviço público, de parentes em prejuízo do interesse da coletividade, a quem deveria servir o detentor de um cargo de gestão.

NEPO é também o radical do nome da família Nepomuceno (NEPO+MUCENO). Talvez isso explique porque a administração do prefeito João Batista Nepomuceno Sobrinho, o João Goiano, no pequeno município de Piraquê-TO, seja um dos maiores exemplos de nepotismo no Brasil atualmente.

Lá no Piraquê, os menos de 3 mil habitantes precisam se esforçar para sustentar os vários parentes do prefeito que ocupam secretárias e outros cargos do primeiro escalão da prefeitura. Corre de boa-em-boca em Piraquê que, atualmente, o maior negócio é ser da família do prefeito e a maior competência é ter Nepomuceno no nome.

Com 2.709 habitantes, segundo o TER-TO, o município de Piraquê tem 10 secretarias, 5 subsecretarias, 1 pregoeiro e, pasmem, 1 cargo de gestor público municipal, a maioria dos cargos ocupados por parentes diretos do prefeito. O prefeito emprega, no primeiro escalão da prefeitura, o filho e a nora, o irmão e a cunhada, dois sobrinhos e outros parentes que ocupam cargo de segundo escalão.

João Goiano, a prefeitura como patrimônio da sua família.
Parece piada, mas chegou-se ao absurdo de o prefeito de Piraquê fazer aprovar na câmara, que aliás lhe é subserviente, uma lei para que a municipalidade pague o salário da sua empregada doméstica. Isso significa que o povo de Piraquê paga, só do primeiro escalão, o salário do prefeito, do seu filho, da sua nora, do seu irmão, da sua sobrinha, da sua cunhada e de mais um sobrinho e, como se não bastasse, ainda tem que pagar o salário da sua empregada. Só não é piada uma coisa dessa, porque é em Piraquê.

O único posto de combustível da cidade, depois que João Goiano chegou ao poder, foi adquirido por seu filho através de laranja, passando o mesmo a ter como principal cliente a prefeitura municipal de Piraquê e vendendo combustível a preço exorbitante.

Suspeita-se, aliás, que o filho do prefeito, secretário de finanças, faça atrasar o pagamento dos funcionários para que, transferido o dinheiro para uma conta poupança, possa apossar-se dos rendimentos até a data do pagamento dos salários, atrasados.  

Bizarra é a frota de carro branco em Piraquê. Pertencem à família do prefeito. Na última vez em que lá estive, enquanto assistia a uma partida de futebol, praticamente a única opção de lazer na cidade, um munícipe, quando passava algum veículo, ia me dizendo de quem se tratava. Logo eu percebi esse detalhe estranho. Todos os carros novos eram de familiares do prefeito com cargos de chefia na prefeitura e, exceto uma camionete prata, todos os carros eram brancos. Suspeita-se que alguns carros chegaram à cidade depois da venda de uma grande fazenda, que rendeu em impostos mais de 2 milhões ao município.  

Enquanto isso, o prefeito fez o que nenhum outro prefeito do Brasil conseguiria, reduziu o salário dos professores quase pela metade. Deve ser de revirar o estômago, ter o seu salário cortado pela metade enquanto a familharada do prefeito dá de braçada nos recursos do tesouro municipal.

Diz-se que a arrecadação do município é baixa. Mas se dá para ilustrar os nepomucenos, devia dar para respeitar a dignidade daqueles cujo salário o governo federal paga em mais de 60%, os professores.

E assim como os demais pequenos municípios do Tocantins, que nasceram só para terem prefeitos, Piraquê sobrevive de repasses federais, principalmente saúde e educação que, suspeita-se, são desviados para outros fins.

Como se vê, o nepotismo, na prática, é o que fazem aqueles que, por falta de caráter, utilizam o cargo que têm para beneficiar os seus parentes tornando o serviço público cabide de emprego, o que prova a incompetência da sua parentela já que se pressupõe que, de outra maneira, estariam desempregados ou subempregados.

domingo, 6 de abril de 2014

A DESIGUALDADE SOCIAL E O PAPEL DO ESTADO - TEXTO REPRODUZIDO DE UMA DISSERTAÇÃO DISCENTE

Autoria: Paulo Vitor, IFG Uruaçu, 1 ano.

A desigualdade social é ocasionada porque o governo não consegue equilibrar as classes sociais, ou seja, aumentar a classe média, o que poderia ser resolvido com uma educação melhor e cursos qualificativos para as classes mais baixas terem uma profissão melhor.

A distribuição da renda é outro fator que contribui muito para as desigualdades sociais. 

De que adianta dar a melhor copa do mundo, com os melhores estádios e ter milhões de famílias passando fome? E ainda por cima, o ingresso é uma fortuna, inacessível para as classes baixas. Se o dinheiro da copa fosse utilizado de maneira mais sensata iria minimizar bastante os problemas sociais. Tomara que o Brasil seja eliminado na primeira fase, pois se ganhar a população irá esquecer dos vários problemas que nós enfrentamos e o governante atual, sem dúvidas, será reeleito.

Cotidiano para muitas crianças e adultos.
O Estado tem o papel de organizar a nação para o progresso, mas infelizmente só reprime as classes baixas para que elas não progridam, dando educação de má qualidade, saúde precária, transporte péssimo, etc.

Esqueça um pouco a Copa do Mundo e as olimpíadas [que serão shows para os estrangeiros] e lembre mais dos milhões de habitantes desse lindo país. O governo diz se importar com os pobres. Mas a verdade é que só lembra deles quando vai cobrar impostos.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O GRUPO DE TRABALHO DO ARAGUAIA (GTA) E AS VÍTIMAS DA DITADURA NO CAMPO



O governo, em especial a Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, tem demonstrado interesse eloquente no sentido de garantir ao povo brasileiro um direito à memória e à verdade, tema aliás recorrente em simpósios, seminários e conferências dos mais importantes espaços universitários do Brasil hoje. Nesse sentido, paralelo às discussões são abertos, também, espaços à visitação, como o antigo prédio do DOI-CODI em São Paulo e multiplicam-se, especialmente em Xambioá, hoje Tocantins, as expedições de busca por restos mortais de ex-guerrilheiros do PC do B que foram executados pelo exército durante a Guerrilha do Araguaia.



Durante mais de 30 anos, familiares e sobreviventes da guerrilha tentam esclarecer os fatos ocorridos no Araguaia e cobram uma reparação do Estado. O movimento armado foi organizado em 1966, pelo PC do B (Partido Comunista do Brasil) na divisa entre Tocantins, Pará e Maranhão, região conhecida como Bico do Papagaio. Os guerrilheiros eram contrários ao regime militar e queriam instituir um estado independente na região.



Trabalho do GTA no Cemitério de Xambioá
Os participantes da guerrilha começaram a chegar no local no final de 1965, instalando-se como pequenos comerciantes. Em 1966, a estratégia era implantar o comunismo no campo e na cidade. Cerca de 80 homens e mulheres ocuparam uma grande área à margem esquerda do rio Araguaia.



Os guerrilheiros eram jovens, universitários, camponeses, engenheiros, geólogos e médicos, que foram combater a ditadura, defender a democracia e os direitos do povo. Em 1972, o núcleo foi descoberto pelo Exército e, em 1975, o movimento foi esmagado pelas Forças Armadas.

Soldados requerem às suas vítimas informações sobre as outras vítimas.
De acordo com a Secretaria Especial dos Direitos Humanos, até hoje não foi descoberto o número de mortes. Estima-se que 59 pessoas morreram durante o conflito e que os corpos estejam enterrados em cemitérios clandestinos da região.



Xambioá é uma cidade às margens do Rio Araguaia, numa região fronteiriça entre Tocantins, de um lado, e o Pará, do outro lado. As expedições concentraram-se nessa cidade porque existe uma série de registros em livros, documentos e relatos relativos à guerrilha que apontam Xambioá como o centro de coordenação das operações contra a guerrilha, local de detenção de presos, tortura e execuções.



O governo acredita que na área urbana da cidade existem dois espaços em que podem ser encontrados restos mortais, no cemitério municipal, que já existia à época, e nas proximidades do aeroporto, base dos militares à época. Nestes locais, além de outros guerrilheiros, podem ter sido enterrados os corpos de Walkíria Afonso Costa e Osvaldo Orlando da Costa, ambos mortos pela repressão militar.  



Em Xambioá, desde 2004, já foram realizadas quase 10 expedições em busca de ossadas dos guerrilheiros do Araguaia. Em 2010 foram encontradas, no cemitério de Xambioá, duas ossadas de guerrilheiros, Bergson Gusmão Faria e Maria Lúcia Petit.



A dificuldade de acesso às pistas levou o governo a, em 2010, criar um número especial, 0800 605 50 00, para atender informantes que possam oferecer pistas sobre prováveis locais em que se possam encontrar vestígios dos guerrilheiros. A verdade é que há uma dificuldade de aproximação do povo que tem uma memória ainda muito viva, embora traumática, da Guerrilha do Araguaia. Mas os intelectuais de gabinete, ao que tudo indica, ainda não souberem se aproximar disso. 


Em 2011 acompanhei, na distância que me foi permitida, o trabalho dos técnicos no cemitério de Xambioá. Para um morador local, o pessoal ali constitui uma lembrança viva da série de filmes “homens de preto”. Nem mesmo o calor e a alta humidade conseguem fazer os homens da Polícia Federal, do Instituto Médico Legal do DF e outros agentes do governo se desfazerem de suas roupagens diferenciadas. O ministro da Justiça e ministra dos direitos humanos estiveram na área em algumas ocasiões e aí o ritual foi maior ainda.



O povo de Xambioá, na verdade, é constantemente maculado pelas invasões ao descanso dos seus familiares profanados sem qualquer respeito. E a eles não é dada qualquer oportunidade de se fazerem ouvidos.



Sei, como todos sabem, em especial o povo sofrido de Xambioá, que também foi vítima da repressão, que os guerrilheiros mortos estão por toda parte. A maioria, cinzas espalhadas na Serra das Andorinhas.



A quem interessa reparar as marcas da Ditadura sobre os camponeses do Araguaia?
O que me incomoda, no entanto, é que aos camponeses atingidos pela Guerrilha do Araguaia, alguns mortos, outros torturados e outros tantos mutilados ninguém demonstra o menor interesse, nem mesmo as discussões acadêmicas. E estes estão lá, para todos verem, e ninguém deseja vê.



Vários envolvidos, aventureiros “da alta burguesia da cidade”, já tiveram seus parentes indenizados. E os camponeses, que até têm associação, estão à mercê. Contradição



Maior contradição ainda é o fato de que o governo investe milhões em expedições de escavação, quando o mais barato e lógico seria impor o poder do Estado sobre o poder dos militares hoje. Tornando o Brasil um país, de fato, republicano-democrático, abriria os arquivos militares e, por essa ação, se poderia saber melhor onde foram parar os corpos dos guerrilheiros.



É fato, no entanto, que existe ampla historiografia e biografias que justifique acreditarmos que não existem arquivos, até mesmo em função do caráter clandestino das operações. Mas, ter acesso à verdade, é não permitir segredos militares de um lado, e um Estado querendo saber a verdade do outro. Contradição.