sábado, 27 de abril de 2013

A UEG EM GREVE

Sempre cuidei para não alienar-me. Na UEG, contudo, esse risco é sempre recorrente em função das circunstâncias em que se dá o trabalho docente. E terminou que fui pego de surpresa na noite do último dia 26 de abril com a notícia de que a UEG estava em greve.

Esse fato impõe a necessidade de reflexão. Para estruturar meu colóquio, preciso remontar alguns fatos:

Quando fui aluno da UEG, entre 2004 e 2008, os problemas já eram os problemas de hoje, e as reclamações naquele momento, constavam de uma lista antiga para a qual o tempo não apresentou nenhuma solução.

Naquele tempo já dizia, em alto e bom tom, sobre a minha convicção de que a UEG ainda não era uma Instituição de Ensino Superior. E continua, de acordo com a regulação do Ministério da Educaçao, não sendo uma IES. Senão vejamos:

A UEG, em algumas unidades/campus, a exemplo de Niquelândia, não tem sequer um único servidor efetivo do seu próprio quadro. Na maioria dos cursos falta a formação mínima exigida pelo MEC ao quadro docente. As bibliotecas e o acesso à internet são verdadeiras piadas. Falta espaços físicos importantes como auditório, que funcionam em salas de aula com plaquetas nos umbrais em que se inscrevem "mini-auditório" cujo espaço não comporta quarenta pessoas.  

Em setembro de 2012, passando pela Unidade Universitária de Uruaçu, por ocasião da sua campanha à reitoria da UEG, único momento em que os reitores visistam as unidades, o atual Reitor Haroldo Heimer me impressionou com a lucidez do seu discurso. Interpelado sobre os problemas estruturais da universidade, ele disse que determinadas conquistas cabiam aos professores num processo de luta coletiva. Tudo bem que a fala não se fez nestas palavras, mas o sentido era exatamente esse.

A UEG não tem sindicato, e é, penso, até melhor que não tenha porque o modelo de sindicato da educação aqui em Goiás, cito o SINTEGO, é uma desgraça completa. 

Mas, não existindo o Sindicato, até que ponto um movimento autônomo consegue articular a participação engajada, tão necessária ao movimento reivindicatório? Concordo com o professor Edmilson, colega da Unidade de Uruaçu por cujas idéias e vida tenho apreço, que defende essa autonomia. De fato, os Sindicatos representam sempre uma negociação excusa com o patrão e não raras vezes, como é o caso do SINTEGO, constitui um tranpolim para algum cargo político às custas da alienação dos filiados. 

Todavia, foi por não existir a articulação que a liderança possibilita que fiquei sabendo da existêncai da greve somente dois dias depois de deflagrada.

Peça publicitária da atual reitoria. A que custo?
Como o governo quer tratar isso? Quer tratar ao modus operandis perillo, ou seja, com cachorro e com polícia. Aliás, o presidente da AGANP, Joevalter Correia declarou, representando o governo, que irá cortar o ponto dos grevistas, prática comum do modus operandis perillo. Da parte do Reitor Haroldo Reimer, que a bem da verdade tem seguido a mesma linha dos seus predecessores, a saber, a criação de uma imagem pública em vistas às próximas eleições ao legislativo estadual ou ao executivo de Goiânia ou Anápolis, disse que não foi comunicado das reinvindicações dos grevistas, como se ele não recebesse, cotidianamente, tais reivindicações.

A luta não está iniciada porque ela sempre houve. Apenas um pequeno grupo luta, mas numa sociedade heterogênea, em relação a interesses, isso é inteligível. Muitos preferem o comodismo escandaloso, como o que há em Goianésia onde, onde a UEG é tratada como patrimônio pessoal ao ponto de recusarem disponibilizar vagas para concurso público. 

Há muito do feio na UEG. Mas a esperança, corporificada pela luta, como o monstro que deve emergir da lagoa, é o que existe de mais bonito. E issa é a antítese da conformidade e dos ninchos de poder e comodismo dentro da instituição.

Os que dizem que defendem a UEG também podem ser seus inimigos. Me causa estranheza que a reitoria atual cuide tanto da sua imagem pública. Me revolta a instrumentalização da UEG com vistas a fins eleitoreiros. Me enoja a política do Marconi, como tenho náusea do conformismo da ala paritária da UEG.

terça-feira, 16 de abril de 2013

IPASGO: MÁ GESTÃO, DESRESPEITO E ROUBO AO SERVIDOR PÚBLICO DE GOIÁS



O Instituto dos Servidores Públicos do Estado de Goiás, o IPASGO, tem demonstrado como um órgão, numa gestão incompetente e descompromissada socialmente, pode encarnar todos os vícios, acrescidos de outros próprios do mau uso da máquina pública.



No IPASGO, ao mesmo tempo em que as contribuições vão ficando cada vez mais altas, o serviço piora e criam mecanismos que dificultam o contribuinte a ter acesso ao serviço pelo qual paga somas vultosas.



O IPASGO tem sido, mais que qualquer outra coisa, cabide de emprego para protegidos políticos dos aliados do governador.



Quem conhece o prédio sede, só para ilustrar com um exemplo, sabe que se trata de um amontoado de pessoas, sabe lá Deus para quê. Um detalhe quase irritante a quem tem um mínio de crítica: se sabe que todo servidor, pelo menos em teoria é alfabetizado, afinal passou por algum tipo de seleção. Mesmo admitindo que, raro, exista segurado analfabeto, difícil seria admitir que exista segurado que não reconhece os números de 1 a 10. Pois bem, o IPASGO paga funcionário simplesmente para apertar o botãozinho do elevador, como se alguém que adentrasse ali, sabendo do andar para onde vai, não soubesse apertar um botão com o número do referido andar.



Isso só não é cômico porque é, por demais, trágico. Eu, professor da UEG, que na qualidade de mestre, tenho um salário bruto de R$ 3.220,40 tenho meu vencimento final reduzido a pouco mais de R$ 2,680,00 –sem nenhum tipo de empréstimo – porque só para o IPASGO pago quase R$ 300,00 – e meu plano é o básico. No entanto, como aconteceu hoje, 16/04, para fazer um raio X de dente –que particular custa R$ 40,00 –precisei esperar quase o dia todo por uma liberação do IPASGO em Goiânia, ao ponto de, pela urgência que tinha do exame, pagar particular.



Isso não é irritante, isso é odioso. Será, me pergunto, que nada no Estado de Goiás pode ser sério? Até quando o servidor será submetido a esse tipo de abuso? Não se pode, num pais como o Brasil, viver sem um plano de saúde, mas a situação do IPASGO é um caso grave de polícia. Mas polícia, não os homens que servem o Marconi para fazer o que ele quer, ou o que ele permite, e depois dizerem que são “pulicia”.

sábado, 13 de abril de 2013

A HISTÓRIA E O HISTORIADOR


Como lembrou a professora Vavy Pacheco Borges, existem certas definições que aparentemente soam como desnecessárias, sendo este, por exemplo, o caso da história. Entretanto, desde que a história iniciou sua jornada rumo ao reconhecimento como ciência, a partir do século XVIII, repensar conceitualmente a história, tornou-se absolutamente necessário. Neste sentido, a reboque, a discussão em torno do ofício do historiador tornou-se também objeto intenso de debates.
Passou a ser necessário adentrar a forma de lidar com material de trabalho do historiador, reler testemunhos e silêncios.
Uma atitude essencial para conduzir a bom termo o desempenho da profissão, fazendo da história uma ciência.
Na década de 1960, Jacques Le Goff tentou elucidar a questão, chegando a afirmar que o trabalho do historiador consistia em estabelecer acontecimentos, bastando aplicar aos documentos um método para fazer os fatos aparecerem.
Porém, descrever o ofício do historiador, envolve considerações mais complexas. Ao contrário do que poderia ser imaginado, o historiador não produz analogias aleatórias a partir de imagens que forma de frases soltas nos documentos, não junta grosseiramente colocações que possam sustentar sua opinião pessoal e não constrói imagens do passado calcadas em suas próprias lembranças ou em concordância com sua visão do presente.
Ele carece do domínio de técnicas que permitam, constantemente, retificar a história, substituindo, como pretenderam alguns, os traços falsos pelos exatos.
É justamente o domínio da técnica que permite ler os documentos para tentar visualizar corretamente o passado.
Como afirmou Charles Beard, o historiador não é um observador do passado que permanece fora de seu próprio tempo, não pode vê-lo objetivamente, como o químico vê seus tubos de ensaio, devendo ver a realidade por intermédio da documentação, seu único recurso.

O historiador e a análise das fontes.


O historiador, não sendo um individuo isento de influencias as mais diversas, fruto de seu próprio tempo, necessita de técnicas que permitam tentar alcançar a objetividade cientifica na leitura e interpretação das fontes.
Poderíamos listar uma infinidade de técnicas utilizadas para ler os dados contidos nos documentos, algumas emprestadas por outras ciências, outras surgidas no seio da análise histórica, contudo, Jean Chesneaux sintetizou as mais usuais na sua obra clássica Devemos fazer tábua rasa do passado, a despeito de confundi-las por vezes com métodos e empregar técnica e método dentro da mesma acepção.
Segundo ele, toda análise histórica, obviamente a partir do século XIX, é tecnicista, busca uma abordagem profissional, sendo reflexo e sustentáculo da ideologia capitalista. Dentro da amplitude deste pressuposto, é habitual observar que os historiadores, independente da corrente teórica ou orientação metodológica, em geral, utilizam a técnica de análise baseada na diacronia-sincronia, assim como a periodização e, por vezes, a quantificação.
Através da diacronia-sincronia, todo fenômeno histórico, expresso através da língua, é analisado simultaneamente em uma série vertical e horizontal.
Sua extensão na dimensão do tempo, a diacronia, permite observar as conexões, antecedentes e conseqüências. Já sua relação com outras referências do conjunto que é contemporâneo, a sincronia, permite visualizar as implicações entre fatos aparentemente desconexos, mas que encontram relação, por vezes, diretas.
Assim, a diacronia possibilitaria perceber, por exemplo, o ideal cruzadistico de combate aos infiéis, circunscrito ao século XII, na península ibérica expresso pela reconquista aos mouros, como uma das causas que conduziram aos descobrimentos portugueses no século XVI.
Possibilitando ainda visualizar a colonização, o povoamento europeu, do Brasil, no século XVII, como um de seus desdobramentos.
A sincronia, centrada também nos descobrimentos portugueses, por sua vez, permitiria notar que problemas internos na Espanha, ainda envolvida na guerra de reconquista no século XV, fomentaram a primazia dos mares aos lusitanos.
Um refinamento da diacronia, a periodização é uma extensão da técnica, organizando as articulações em etapas, períodos que visam facilitar o estudo do fenômeno, criando compartimentos fechados envolta de momentos que parecem centrais dentro de cada etapa da história.
Uma técnica que foi reforçada pela prática pedagógica, especializando o conhecimento histórico, servindo de exemplo os estudos focados no renascimento ou na Idade Moderna.
Menos usual do que as técnicas qualitativas da diacronia-sincronia e da periodização, temos a quantificação.
Surgida, como ressaltou Jacques Le Goff, na década de 1960, a partir do estimulo da revolução tecnológica representada pela invenção do computador, passou a permitir estabelecer relações complexas, usando a estatística para chegar a conclusões palpáveis.
Quantificando o número de navios que circularam na rota do Brasil e da Índia, por exemplo, ao longo do século XVI e XVII, poderíamos vislumbrar o momento da viragem do centro econômico e social do Império português, provando, através da quantificação dos naufrágios, o peso deste componente no declínio do poderio lusitano no Oriente.
Entretanto, como lembrou Gramsci, cabe ressaltar que a história não pode ser reduzida a um cálculo matemático, ou ainda que a estatística mostra o caminho ao cego, mas não restitui a visão.
O que não invalida a técnica da quantificação e nem tampouco seus desdobramentos a história demográfica e a história serial, linhas de pesquisa que já foram tidas como concepções teóricas ou metodológicas, mas que na realidade constituem aprofundamentos da técnica.

A leitura das lacunas do passado.

Em certa ocasião, Walter Benjamin lembrou que o passado só se deixa fixar como imagem que relampeja, irreversivelmente, no momento em que é reconhecida, fazendo com que o historiador não tenha domínio dos fatos como eles realmente foram, apropriando-se de uma reminiscência do passado.
Este último constitui um espaço repleto de “agoras”, apenas uma construção limitada pelo que é possível conhecer em dado contexto, circunscrito ao momento de sua configuração.
O agora capta a imagem de sua própria época e não, propriamente, do passado que almeja conhecer, inserindo-se na leitura deste passado os testemunhos como os espaços em branco, os silêncios.
Talvez por este motivo, desde o século XIX, os limites da história sempre foram questionados, muitas vezes considerada mais próxima da literatura do que da ciência, contudo, é inegável que o positivismo e a escola metódica inauguraram a busca pela objetividade na história, fazendo os historiadores procurar pela cientificidade desde então.
Como ressaltou Ciro Flamarion Cardoso, a partir de Annales, dado seu pluralismo e a análise das estruturas globais, a história adquiriu um incontestável caráter cientifico, uma vez que, como qualquer outra ciência, passou a trabalhar não mais com acontecimentos únicos, mas com aspectos sujeitos a regularidades, como as estruturas sociais e culturais.
A primeira geração de Annales, fundou um conceito de história extremamente vinculado à ciência.
Lucien Febvre definiu a história como uma ciência do homem e do passado humano, das coisas e dos conceitos, cabendo ao historiador interpretar os feitos humanos, recompondo a realidade que serve ao entendimento de um momento concreto, a partir do que os documentos permitiram em dado contexto.
A interpretação das lacunas, embasada por métodos e técnicas, também constituiria objeto do oficio do historiador.
Seguindo esta linha de orientação, Paul Veyne, na década de 1970, concluiu que a história possuiria grande proximidade com a ficção, distinguido-se de um romance somente pelo compromisso de buscar a verdade, constituindo, na realidade, uma tentativa de narrar a verdade, prejudicada pelo caráter subjetivo da história e da interpretação das fontes.
Isto para não mencionar outros aspectos circunscritos à documentação que sustenta a análise histórica, tal como a inexatidão da narrativa ou as intenções envolvidas na produção das fontes.
Em outras palavras, como afirmou Eric Hobsbawm, o passado e a história são ferramentas utilizadas para legitimar as ações do presente, assim como as fontes têm um alcance político e ideológico, tornando a visão do passado distorcida.
É justamente baseado na leitura das lacunas do passado pelo historiador, envolvendo não só a ausência de dados, os silêncios; mas também a incapacidade de análise objetiva das fontes; que, pejorativamente, Poincaré, filosofo da ciência, chegou a afirmar que a história seria uma ciência que adivinha o passado.
Em certo sentido ele tinha razão, como demonstrou Michel de Certeau, hoje, mais do que nunca, o historiador tem se desviado para as zonas silenciosas, como, por exemplo, a feitiçaria, a loucura, a festa, a literatura popular, o mundo do esquecido, etc.
Aplicando-se a estes silêncios da história também a ausência de documentação, criando hiatos que são objeto de questionamento e problematização.
Destarte, como ressaltou Jacques Le Goff, não existe sociedade sem história, o que conduz ao conceito de historicidade, o pertencer de cada individuo ao seu tempo, os aspectos comuns que todos os homens de determinada época compartilham.
O que impossibilita qualquer ciência de evitar extrair conclusões próprias, descoladas de sua historicidade.

O ofício do historiador e a problematização do passado.

Quer seja o oficio do historiador o domínio de métodos e técnicas, circunscritos a um conjunto teórico; ou, ainda, um exercício de imaginação, a construção de uma narrativa verossímil, entre outras possíveis; não se pode negar que o surgimento da escola de Annales inaugurou uma postura diferenciada.
Na realidade, uma reação critica as concepções históricas do século XIX, notadamente rejeitando a ênfase positivista e metódica em política, diplomacia e guerras, assim como a abordagem economicista do marxismo.
Annales se propôs a problematizar a história, contrariando a coleção de fatos perpetuada pelas tendências anteriores, tentando se isentar de ideologia, procedimento adotado pelo marxismo, embora esta tentativa seja passível de inúmeras criticas, já que o historiador, estando inserido em um tempo histórico, jamais conseguirá traçar uma análise imparcial.
A partir da problematização, Annales desdobrou-se em várias linhas teóricas e campos de pesquisa, notadamente servindo de base para criar departamentos tanto de história social como econômica.
Fomentou debates acerca da natureza teórica do conhecimento histórico, atualmente, incorporados ao panorama contemporâneo.


Bibliografia

BEARD, Charles A. “That noble dream” In: The American historical review. New York, 41 (1): out. 1935, p.74-87.
BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito de história” In: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1996.
BORGES, Vavy Pacheco. O que é história? São Paulo: Brasiliense, 1993.
CARDOSO, Ciro Flamarion. Uma introdução a história. São Paulo: Brasiliense, 1992.
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. São Paulo: Forense Universitari, 2002.
CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tábua rasa do passado?: sobre a história e os historiadores. São Paulo: Ática, 1995.
FEBVRE, Lucien. Combates por la historia. Barcelona: Ediciones Ariel, 1970.
HOBDBAWM, Eric. Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
LANGLOOIS, Ch. V. & SEIGNOBOS, Ch. Introdução aos estudos históricos. São Paulo: Editora Renascença, 1946.
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Unicamp, 1990.
VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Brasília: Unb, 1998.

FONTE: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

"DESCULPA": CORDIALIDADE OU NEUROSE PAULISTANA

Quem chega na cidade de São Paulo pela primeira vez, e precisa pegar o Metrô no meio da manhã, sobretudo na linha amarela, como foi o meu caso, certamente ficará impressionado com a modernidade, conforto e qualidade desse serviço de transporte público. A cidade, em sua peculiaridade de metrópole, é toda ela impressionante. Cores, sons, etnias. Esse, diria, é lado colorido de São Paulo. Mas isso não é São Paulo. A cidade de São Paulo é, preponderantemente, um concreto frio, uma aura nebulosa e um povo que padece de uma neurose social.

Estação da Paulista e Consolação em horário de pico.
Desde o primeiro dia aqui fui obrigado a conviver com esse paradoxo. O metrô é moderno, mas o seu uso é bárbaro. O ímpeto de grandeza, a imponência dos prédios, intrínseca à sociedade do concreto não supera a miséria nas ruas pontilhadas de usuários de drogas, prostitutas e outras figuras do submundo comumente descritos em literatura policial barata. 

Para além dessas contradições, cada vez mais acentuadas em nosso país, me causou impacto a neurose do "desculpa" com que o paulistano se refere a quase todo tipo de contato com o outro.

Num primeiro momento isso pode parecer simplesmente cordialidade e o brasileiro, como bem nos demonstrou Sérgio Buarque de Holanda e tantos outros estudiosos de nosso povo, é "o homem cordial" por excelência. No entanto, todo excesso revela, ou esconde, alguma coisa. Aqui em São Paulo, se você olhar pra pessoa, ela te pede desculpas. É impressionante! Se minha mochila toca em alguém, a pessoa, que na verdade deveria se incomodar, pede desculpa; se meu braço roça de leve, a pessoa pede desculpa. Aqui há sempre um pedido de desculpa para tudo, em todo lugar e a todo momento. 

Então, de que os paulistanos se desculpam tanto? Acredito que da sua própria falta de humanidade. As pessoas aqui estão quase sempre correndo. São formiguinhas que correm juntando folhas, juntam, juntam e juntam folhas. Elas levantam ainda madrugada, pegam a o trem, metrô ou o ônibus lotado e vão juntar folhinhas. Ao final, casadas, voltam, como gado, ao seu covil e esperam um novo amanhecer para voltarem a juntar folhinhas.

Ninguém fala com ninguém. Olhares perdidos, sabe Deus em que pensam, se é que pensam. Olhares perdidos, bocas mudas e mentes bloqueadas pelo último volume do aparelho sempre ao ouvido. Nossa, como admiro a modernidade paulistana! 

Aqui, onde os nordestinos são marginalizados em função de sua origem, nordestina, ouve-se muito outras línguas: orientais, alemã, francesa, espanhola e principalmente inglês. O paulista tem orgulho dessa multiplicidade de povos, desde que esteja excluído o elemento brasileiro-nordestino, que como afirmou uma internauta recentemente, deviam ser afogados nas águas poluídas do Rio Tietê. 

A essa altura o leitor pode estar pensando "bobagem, o paulista pede desculpa porque é educado". Talvez seja isso mesmo. Mas, provavelmente pelo espírito inquieto de historiador, questiono, não é contraditório que um povo tão indiferente ao outro, enquanto sujeito humano, um povo tão bárbaro na forma de concorrer, mesmo quando a concorrência se limita à ocupação de um lugar no metrô, ao mesmo tempo peça tantas desculpas? 


A vida em círculo, sempre o mesmo círculo.
Esse povo vive num labirinto. A modernidade construiu-se na convicção de superar, pela certeza de verdades dadas, o labirinto da subjetividade, da religiosidade e da pura superstição. Mas a modernidade nos pôs num labirinto. O moderno é um labirinto. Quisera eu conhecer uma noção mais aprimorada, que melhor signifique esse sentido de labirinto, de existência medíocre, de sentido paradoxal à existência humana que essa forma circular, monótona, nebulosa e fria de vida característica dos paulistanos.

E desde Nietzsche sabemos que o labirinto é o que há de melhor na vida. Desde a leitura de Nietzsche apaixonei-me pelo labirinto. O labirinto em Nietzsche é existencial, por isso reflexivo, desafiador, criativo. O labirinto era possibilidade. Aqui, no entanto, o labirinto tem outro significado, é apenas um círculo vicioso, estéril e frio. A vida em círculo, sempre o mesmo círculo.

A melhor tradução da "vida de gado" do Zé Ramalho.
  




quarta-feira, 27 de março de 2013

DEMOCRACIA É ISSO: FELICIANO E A REDEFINIÇÃO DE DEMOCRACIA

O pastor e deputado Federal Marco Feliciano, protagonista da mais recente demonstração das contradições do Congresso Brasileiro, conseguiu, entre os muitos feitos que lhe tem tornado notório, redefinir a democracia para além do conceito clássico que a história lhe havia consagrado desde a modernidade liberalista européia.

O deputado, que sem pudor algum, insiste em se manter num cargo contra a vontade de quase todos, já era conhecido por desumanizar grupos cuja humanização deveria promover.

A defesa desses grupos pressupunha práticas democráticas em face à ações não-democráticas. Ele, na sua infinita capacidade de ser uma contradição, demonstrou que a democracia será promovida dentro dos mesmos padrões pensados por movimentos como o nazismo e o fascismo, ou seja, silenciando as dissidências.

Nesse espírito, mandou, hoje, 27/03, prender um manifestante que, dentro do espírito de liberdade democrática, o criticou e o chamou de racista. Depois disso,  mandou fechar a casa de Leis, que antes de qualquer coisa, é casa do povo brasileiro.

Assim, por tais atitudes, fica ainda mais clarividente o perfil do nefasto pastor e a sua escancarada incompatibilidade com a função que pretende ocupar. Feliciano é o cúmulo do retrocesso democrático, do respeito às liberdades e à tudo o que construímos no tempo.

sábado, 23 de março de 2013

REDAÇÃO NO ENEM: AGORA SE SABE QUE OS AVALIADORES NÃO LÊEM.

O que ficou público e notório,  a partir da divulgação pela grande imprensa de algumas redações muito particulares do ENEM, é que os avaliadores, de fato, não lêm o texto.

Agora, pela publicação de dois casos em especial, do aluno que inseria a letra do hino do palmeiras e do que ensinou receita de macarrão instantâneo em suas redações, todos nós sabemos que não há necessidade de seguir regras de escrita apreendidas com esforço e algumas noites de sonos perdidas para se ter uma boa nota na redação do ENEM.

Absurdos do ENEM.
Ao G1 Paulo Portela, diretor do CESPE, famoso órgão responsável por certames de muitas funções públicas importantes e bem remuneradas, apresentou explicações que tenderam a justificar a boa avaliação dos alunos pela generalidade dos critérios de avaliação da redação.

Assim, as respeitadas professoras, doutoras em linguística, Dra. Vilma Reche Corrêa e Dra. Maria Luiz Monteiro Sales Coroa disseram ao Brasil ser plausível que um aluno que escreve uma redação sobre imigração e, no meio do texto cortando a trama da escrita, inclua a letra do hino de um time de futebol faça jús à 500 pontos, de um total de 1.000; ou ainda que outro aluno ensine a fazer miojo, numa redação sobre imigração, tenha nota 560.

Diante disso, fica a inevitável questão, se ensinar miojo e escrever sobre o hino do Palmeiras, que certamente as doutoras desconheciam, e devem até ter gostado do texto, torna o candidato merecedor de uma nota regular, para fazer jus a uma nota excelente, o que ele deve fazer? Incluir o hino do flamengo ou ensinar fazer feijoada, que seriam escritos mais nobres? 

E para zerar a prova o que fazer? Simplesmente não ter título, mesmo que o texto fosse excelente, do ponto de vista da normalidade, ou para zerar bastaria escrever uma redação de fato?

A verdade é que foram milhões de textos a serem lidos e, certamente, faltou gente em número e em qualidade intelectual suficiente para o fazê-lo. Deveriam saber, também os alunos do ensino regular, que um professor com 60 horas semanais, 12 ou 15 turmas, com quase 1.000 alunos também não lê os textos que pede.